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Mostrando postagens com o rótulo Documentários

Um longo caminho (AUTODECLARADO)

Qual é a função de um documentarista? Focar em uma temática e destrinchá-la ao máximo com questionamentos relevantes. É o que Maurício Costa, diretor de Era de Gigantes (2017) e Uber X Táxis  (2020), ambos documentários,  com estreias no Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, faz em Autodeclarado. A temática central é a questão das cotas raciais, porém, outras subtramas surgem com maior potência.  A base e o que move o documentário são as cotas para o processo de cotas em Universidades Federais e Concursos Públicos. Um longo debate é proposto com personagens que envolvem o espectador. Um aspecto importante que sempre está presente no debate entre os personagens é se "ser considerado pardo" é pertencer realmente aos movimentos raciais. Uma pessoa parda teria mais dificuldades em ser considerada negra, pelos traços físicos, como cabelo e lábios. Maurício foca nesse aspecto com maior profundidade e faz o espectador refletir se quem é pardo sofre o mesmo preconceito que u...

Imagens que ecoam de forma significativa no espectador (Noite e Neblina)

Noite e Neblina é um documentário com duração de trinta e dois minutos que explora os horrores da Segunda Guerra Mundial, em específico, os campos de concentração nazista. A pequena duração é mais do que suficiente para fazer com que o espectador tenha contato com o que foi um dos piores genocídios mundiais. A proposta do filme de Alain Resnais é alternar imagens da guerra e pós-guerra. A atmosfera densa e fria das imagens em preto e branco contrastam com nascimento da grama verde viva, apesar dos arames farpados ainda permanecerem no local como uma terrível lembrança. O roteiro de Jean Cayrol, poeta sobrevivente do holocausto, utiliza o recurso da narração para aproximar o espectador e o convida para ir além das imagens perturbadoras. Todo o sofrimento presente no documentário destaca os sentimentos vivenciados por Cayrol. Sobreviver a fome, doenças, frio, calor, desespero com um pouco de poesia. Encontrar leveza nas frases do roteirista é uma tarefa difícil para o espectador, pois as...

Além do choque cultural (Indústria Americana)

O documentário American Factory traça um paralelo entre a cultura americana e chinesa. A primeira, cheia de autoconfiança e esperança em conquistar o sonho americano, já a segunda é voltada para a produtividade, lucro e disciplina. No começo tudo são flores quando um bilionário chinês decide abrir uma fábrica de vidros de automóveis em Ohio. A cidade tinha uma fábrica da General Motors, mas com o fechamento muitos foram demitidos modificando a vida local. A abertura de uma nova fábrica fez renascer a esperança de uma vida melhor. O que parecia ser apenas um ruído na comunicação tornou-se um verdadeiro obstáculo tamanho o choque cultural. Não gerar lucros para os chineses é sinônimo de fracasso total. A partir do momento que o choque cultural vem à tona o documentário enriquece aos olhos do espectador. A pressão só aumenta e os funcionários não conseguem se entender. A ausência de comunicação gera uma bola de neve e funcionários insatisfeitos. Os diretores deixam claro para o pú...

143 - I love you (Won´t You Be My Neighbor?)

O lema de Fred Rogers era o amor ao próximo. O icônico apresentador conseguia tocar diretamente no coração das crianças. O documentário Won´t You Be My Neighbor? relata a trajetória de Rogers com o programa infantil que foi transmitido por décadas na televisão americana. Com uma simplicidade camuflada, o programa era extremamente rico, pois Rogers tocava em assuntos delicados com muita propriedade para atingir diretamente o público-alvo. Em imagens de arquivo, as crianças olhavam hipnotizadas para o apresentador. Com um misto de fascínio e indagação os pequenos faziam vários questionamentos e as respostas eram acompanhadas de um longo sorriso do protagonista. Era uma relação de dependência afetiva, pois quando Rogers tentou realizar um programa voltado para o público adulto, não obteve êxito.  A figura do apresentador era tão emblemática que mesmo após o término do programa, o chamaram para tecer algumas palavras de conforto em rede nacional quando as Torres Gêmeas caí...

Dulcina vive intensamente em cada artista (Dulcina)

A diretora Glória Teixeira conta a trajetória de Artista Dulcina de Moraes em um documentário que alterna ficção e realidade. A diretora mescla depoimentos de companheiros dos palcos, alunos e atrizes interpretando a protagonista. As atrizes que interpretam Dulcina também são entrevistadas para relatar momentos memoráveis da atriz. Dentre as características que permeiam todos os depoimentos estão o bom humor e a rigidez da artista com os alunos. Quando o documentário foca em alunos da faculdade em Brasília, alguns relatavam que Dulcina chegava a dar tapas na cara dos alunos quanto eles não faziam o que ela queria.  Sou atriz e minha primeira peça de teatro foi no Teatro Dulcina, no Conic. Sabia da dimensão da Artista que leva o nome do teatro, porém com o documentário a importância de Dulcina para as artes cênicas brasileira me fez repensar o quanto significou ter pisado em um palco tão significativo. A Artista vendeu tudo que tinha no Rio para fincar raízes em Brasília. O ...

Tudo é uma grande homenagem (O que fazemos nas sombras)

Viago, Vladislav, Deacon e Petyr. Quatro vampiros de idades distintas vivendo no mundo dos meros mortais. A proposta de O Que Fazemos Nas Sombras é apresentar ao espectador um pouco da vida dos vampiros com um documentário. Dois câmeras registram o cotidiano dos vampiros de forma realista. O ideal é transmitir com "naturalidade" para o espectador um pouco de como os quatro amigos, antes de serem vampiros, são basicamente no período noturno. Jemaine Clement e Taika Waititi são os donos do longa. A dupla está envolvida em basicamente todas as funções possíveis no filme. Os gêneros predominantes, o terror e a comédia, nos envolvem de tal maneira que o documentário passa rapidamente.  A dupla presta uma homenagem aos monstros da sétima arte. O foco são os vampiros, mas entre os atos outros monstros surgem no documentário. O roteiro propõe ao espectador saber mais sobre os quatro amigos. Os arcos dos personagens são bem desenvolvidos e todos possuem a devida importância na...

Um protagonista em vários (Fernando)

Durante toda a projeção do documentário biográfico Fernando, uma pergunta sempre esteve presente: o retratado está atuando ou estou vendo a vida real? Ao final do filme não existe uma resposta para o questionamento. O espectador acompanha sim a vida real do artista completo, com dificuldades físicas e vontade de deixar uma marca para as futuras gerações. No primeiro ato o espectador vive a angústia do protagonista. Um problema cardíaco começa a sugar as forças de Fernando que vive intensamente e com imenso prazer a vida que escolheu percorrer durante décadas. O protagonista modificou a vida de uma pequena cidade com arte. A temática artística permeia o documentário por completo. Como a arte impactou a vida de todos ao redor de Fernando? O trio de diretores Igor Angelkorte, Julia Ariani e Paula Vilela conseguem captar e fazer com que a vida do protagonista seja pulsante o suficiente para que cause a empatia necessária do espectador. Fernando Bohrer possui uma energia que eleva ...

Um protagonista encantador (Jonas e o Circo sem Lona)

Uma aluna da escola de Jonas indaga: "Você não estuda, só fica aqui parado e comendo. Que belo documentário!". Apesar do tom irônico da jovem, sim, Jonas e o Circo Sem Lona é um belíssimo e tocante documentário sobre um jovem sonhador de traços indígenas. Entre a casa e a escola, o espectador se encanta com persistência de Jonas que deseja continuar a jornada de seus parentes. Alguns ainda vivem do circo, aquele que não tem parada fixa, somente um caminhão e o chão da estrada. A mãe de Jonas, no terceiro ato, perto do desfecho reflete : " Sei que o desejo de Jonas é viver do Circo, mas quero que ele estude. Sei que não posso segurá-lo por muito tempo, mas enquanto eu puder, ele fica comigo".  É difícil distinguir onde começa e termina os atos do documentário porque a diretora Paula Gomes simplesmente acompanha o cotidiano do adolescente. A vontade e o comando de Jonas ao ensaiar e tomar para si o Circo improvisado nos fundos de sua casa reforça a ideia de b...

O embate entre o moderno X o tradicional (#UberXTáxis)

O mais recente longa metragem do diretor Maurício Alves da Costa, #UberXTáxis amplia o detabe sobre os conflitos entre motoristas de táxis e do aplicativo Uber. Será que a nova ferramenta virtual é realmente mais eficiente? Quais as vantagens e desvantagens do aplicativo? É seguro trabalhar para esse novo segmento do mercado? Muitas questões são ressaltadas no documentário que tem como pano de fundo a Capital Federal. Nos primeiros minutos de #UberXTáxis, o diretor relembra o espectador da manifestação e indignação de vários taxistas em frente ao Congresso Nacional. Ao dar voz para alguns personagens, Maurício inicia o documentário com um ritmo mais pulsante. A revolta de trabalhadores que dedicaram quase duas décadas de serviços e contribuições para o Estado e que do dia para noite tiveram o seu sustento ameaçado pelo novo aplicativo eleva a dramaticidade do filme.  Além da empresa Uber, também são entrevistados personagens ligados aos aplicativos Cabify e 99. Seri...

A vida constantemente ameaçada (Human Flow: Não Existe Lar se Não há para Onde Ir)

O Poder do documentário Human Flow: Não Existe Lar Se Não Há Para Onde Ir está nas imagens. O diretor Ai Weiwei percorreu durante um ano 23 países para explorar e demonstrar em um tom poético a vida ou para utilizar uma palavra mais apropriada, a sobrevivência. O filme foca em famílias que buscam um pouco de esperança nos constantes deslocamentos fugindo de guerras, fome e perseguições políticas.  As imagens refletem um ritmo lento para que o espectador compreenda o quanto é penoso o deslocamento e o trageto percorrido pelos refugiados. Os planos gerais são essenciais para ter a dimensão do local e as conduções precárias em que as famílias são submetidas. A falta de recursos básicos contrasta com belas imagens do oceano que dia após dia transporta pessoas em busca de uma vida melhor. A dualidade presente nas imagens é reforçada pela beleza presente nos trechos de poetas que proporcionam ao documentário uma leveza passageira.  Ai Weiwei por diversos momentos se tor...

Um bela e intensa história de amor (O Último Tango)

Para um documentário despertar o interesse no espectador, a temática precisa ser explorada devidamente para o público se envolver cada vez mais pelo que é retratado na tela. E se os entrevistados forem cativantes o suficiente, o filme ganha uma perspectiva ainda maior. Em O Último Tango, esses aspectos são apresentados de forma interessante e diferenciada. O diretor German Kral percorre cinco décadas da dupla   María Nieves e Juan Carlos Copes . Parceiros no tango e na vida, Kral mostra o casal para o público de uma forma distinta: convida atores jovens para encenar e pesquisar mais sobre a vida dos protagonistas em forma de entrevistas. María conta o começo da vida sofrida com a mãe e quando o despertar pela dança se fez presente em uma brincadeira inocente com uma vassoura. Ela desejava ir aos bailes e em um desses momentos trocou olhares com o jovem rapaz que seria futuramente seu parceiro por várias décadas.   A protagonista ignorou prontamente o fato de Jua...

Sua verdadeira companheira foi a solidão (Janis)

Como fica a cabeça de uma jovem quando ela é eleita o Homem mais feio do mundo? Este é somente um dos aspectos explorados por Amy Berg no documentário Janis: Little Girl Blue. O espectador é imerso no universo e olhar proposto pela diretora. A vida conturbada da cantora era um misto de intensas alegrias e tristezas. O fato mencionado acima mexeu psicologicamente com a protagonista que passou seus 27 anos tentando ser aceita nos grupos que pertencia. Aqui, a figura dos palcos fica em segundo plano para que o espectador conheça o lado humano e extremamente sensível de Janis Joplin. Um dos aspectos mais interessantes do documentário são as cartas que a cantora escrevia para a família relatando sua tão sonhada liberdade conquistada após deixar o conservador estado do Texas. Mas sempre nas entrelinhas escritas, Janis nunca deixava de enfatizar a solidão. O sentimento de euforia com a turnê da Banda Big Brother and the Holding Company e o sucesso conquistado eram abordados, mas acom...