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Um protagonista em vários (Fernando)


Durante toda a projeção do documentário biográfico Fernando, uma pergunta sempre esteve presente: o retratado está atuando ou estou vendo a vida real? Ao final do filme não existe uma resposta para o questionamento. O espectador acompanha sim a vida real do artista completo, com dificuldades físicas e vontade de deixar uma marca para as futuras gerações. No primeiro ato o espectador vive a angústia do protagonista. Um problema cardíaco começa a sugar as forças de Fernando que vive intensamente e com imenso prazer a vida que escolheu percorrer durante décadas. O protagonista modificou a vida de uma pequena cidade com arte. A temática artística permeia o documentário por completo. Como a arte impactou a vida de todos ao redor de Fernando?

O trio de diretores Igor Angelkorte, Julia Ariani e Paula Vilela conseguem captar e fazer com que a vida do protagonista seja pulsante o suficiente para que cause a empatia necessária do espectador. Fernando Bohrer possui uma energia que eleva o documentário. O trio consegue extrair também momentos de vulnerabilidade, nesses momentos percebemos a fragilidade do protagonista ao lidar com questões que a vida proporciona. A fragilidade do ser humano que quer viver, mas ao mesmo tempo sabe que a "máquina" (o corpo humano) dá sinais de desgaste. Mesmo nos momentos mais difíceis, os diretores escolhem explorar logo em seguida a rotina do ser humano. Comprar frutas ou comer uma marmita na pausa para o almoço. O retrato do cotidiano e o ofício da arte balanceio o ritmo do documentário. 

A pergunta se estamos diante de um documentário que retrata a vida real ou se estamos diante de um ator interpretando um personagem pode causar inquietações no espectador. Estou vendo o ATOR Fernando Bohrer interpretando ou estou vendo o verdadeiro Fernando? Essa dualidade torna o documentário mais impressionante no ponto de vista artístico, onde personagens se misturam. Os Fernandos retratados possuem uma igualdade de forças em cena que em determinado momento a resposta para a pergunta começa a perder forças. Qual Fernando o espectador quer apreciar? Estamos envolvidos o suficiente na trama real ou fictícia? Ambas são igualmente importantes para o documentário.



Não existem muitos personagens que complementam e intensificam a parte documental de Fernando. O espectador tem contato com a vida do protagonista pelo cotidiano exposto na tela. Sabemos que ele está doente porque foi ao médico. Sabemos de sua contribuição para a vida de várias crianças de uma pequena cidade em uma conversa com amigos. Sabemos do amor pelas palavras e diálogos travados na intimidade com seu companheiro de vida. E assim, nos envolvemos em cada cena pelo protagonista ou ser humano ou ambos imersos durante o filme.

Perto do desfecho o espectador compreende que independente de ser um personagem real ou fictício, Fernando é sinônimo de pulsação na tela. Um protagonista que em determinado momento solta a pérola permeada por uma inquietação: "Não sei se você está me entendendo. Ah, eu acho que sou louco mesmo!". Sendo louco ou meramente humano. Sendo real ou ficcional. Fernando é um protagonista em vários que tenta contar sua trajetória.

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