Pular para o conteúdo principal

Nomes de peso e um roteiro raso (O Caçador e a Rainha do Gelo)



Quando a releitura de um clássico rende além do esperado é inevitável que a indústria cinematográfica queira lucrar mais e investir em uma franquia. É o caso do prelúdio O Caçador e a Rainha de Gelo. A trama é focada em um primeiro momento nas irmãs , Ravenna e Freya, ambas possuem poderes, mas após um trauma vivido por Freya, ela se afasta da irmã mais velha e começa a construir o próprio reinado, onde as crianças desde muito pequenas aprendem a lidar e lutar contra o sentimento puro do amor. Posteriormente, a história gira em torno do casal, Erik e Sara, eles crescem e o amor os aproxima ainda mais.

Uma sucessão de equívocos acompanham toda a trama. O grande problema de O Caçador e a Rainha de Gelo é o roteiro. É louvável reunir um elenco de atores competentes que fazem o possível para conseguir transmitir um pouco de credibilidade e lógica na história. A falta de foco é tamanha e estabelece a confusão no espectador logo no começo da trama. As protagonistas são as irmãs ou o casal? Não teria problema algum se todos os personagens fossem explorados e desenvolvidos de forma convincente. Ravenna teve o devido destaque no filme anterior, mas aqui seu personagem aparece em poucas cenas e seu desenvolvimento é raso e não acrescenta muito a trama. Uma pena pois Charlize transmite força e defende com competência a personagem.

É compreensível que a igualmente competente Emily Blunt queria transmitir para Freya a frieza da personagem fazendo uma analogia aos poderes adquiridos por ela , mas o gestual e a tonalidade vocal composta pela atriz é extremamente lenta e cada vez que a trama gira em torna dela a consequência é  a ausência de agilidade necessárias para as cenas de ação .  A maioria da cenas e o reflexo do roteiro fraco estão presentes em Freya, ela tem como base sólida em seu reinado a ausência do amor, mas somente este aspecto não faz a trama ganhar força e sustentar todo o filme.  O conflito das irmãs e a luta pelo amor do caçador e a guerreira já seria interessante para desenvolver a história, mas além dos aspectos mencionados, o roteiro ainda tenta no meio do caminho explorar um poderoso espelho que está desaparecido e cabe ao casal com a ajuda de seus pequeninos amigos impedir que ele volte para as mãos de Ravenna.


Um aspecto que prende o espectador que neste momento já está mais perdido com as sucessivas confusões do roteiro é o tom cômico estabelecido pelo núcleo dos anões. Nion e Doreena são a conexão presente para estabelecer um pouco de equilíbrio no humor da trama. O carisma de Chris Hemsworth e a presença forte de Jessica Chastian conseguem proporcionar uma interessante química para o casal, mas novamente o roteiro fraco não faz o espectador torcer para ambos. 

O Caçador e a Rainha de Gelo é o reflexo de que atores competentes não conseguem defender seus personagens se tiverem em mãos um material pobre para ser explorado. O que poderia ser um filme mediano com a presença forte dos nome de peso do elenco perde significado em um roteiro raso. O que temos é somente um prelúdio com a justificativa de arrecadar bilheteria.




Comentários

Unknown disse…
Pelo que você descreveu era o que eu esperava. E, portanto, não me arrependo de ter pulado este. Mas diga: e os efeitos e a composição visual como um todo, como estão?

O ritmo é arrastado e derruba ainda mais o roteiro ou a história mesmo que ruim flui bem?

Você considerou melhor ou pior que o primeiro?

Obrigado pela crítica, vai me poupar alguns dinheiros....

Postagens mais visitadas deste blog

E o atendente da locadora?

Tenho notado algo diferenciado na forma como consumimos algum tipo de arte. Somos reflexo do nosso tempo? Acredito que sim. As mudanças não surgem justamente da inquietação em questionar algo que nos provoca? A resposta? Tenho minhas dúvidas. Nunca imaginei que poderia assistir e consumir algum produto em uma velocidade que não fosse a concebida pelo autor. A famosa relíquia dos tempos primórdios, a fita VHS, também nos aproximava de um futuro distópico, pelo menos eu tinha a sensação de uma certa distopia. Você alugava um filme e depois de assistir por completo, a opção de retornar para a cena que mais gostava era viável. E a frustração de ter voltado demais? E de não achar o ponto exato? E o receio de estragar a fita e ter que pagar outra para o dono da locadora? Achar a cena certinha era uma conquista e tanto. E o tempo...bom, o tempo passou e chegamos ao DVD. Melhoras significativas: som, imagem e, pasmem, eu poderia escolher a cena que mais gostava, ou adiantar as que não apreciav...

Entretenimento focado em referências (Um Espião e Meio)

Logo no início de Um Espião e Meio as referências são evidentes ao retratar a adolescência dos protagonistas. Muito próxima da linguagem narrativa utilizada em Anjos da Lei com Jonah Hill e Channing Tatum, o universo escolar é abordado pelo contraste de características dos personagens. Dwayne Johnson vive o agente da CIA, Bob Stone que no passado sofria bullying por estar cima do peso, as cenas do protagonista na adolescência são próximas as da filha de Bela na Saga Crepúsculo. A montagem com o rosto do ator em um corpo diferente é , no mínimo, questionável. Kevin Hart vive Calvin Joyner, sempre conhecido como Foguete Dourado, o  mais popular na juventude . Após 20 anos, ambos se reencontram e fica evidente que um ajudará o outro a desvendar uma trama repleta de clichês.   O filme aposta na química da dupla, mesmo que esta não funcione a maior parte do tempo. Individualmente os atores possuem carisma suficiente para segurar os protagonistas, mas quando estão juntos a...

Um sopro inovador em Hollywood (Buscando...)

Buscando... é uma trama que presa pelos detalhes, eles estão todos na tela e aos poucos tudo se encaixa como peças de um quebra-cabeça. O envolvimento do espectador é imediato. Com um ritmo constante o público conhece e se conecta com os dilemas da jovem Margot. Com a morte da mãe, a adolescente sempre mantém contato com o pai por mensagens no celular e ligações. David começa a ficar preocupado quando a filha não retorna para casa e logo o pai pede ajuda da polícia para tentar encontrar a filha.  O roteiro do diretor Aneesh Chaganty e de Sev Ohanian ressalta detalhes e  provoca o envolvimento do espectador. Todos são suspeitos do desaparecimento de Margot. Os roteiristas exploram um equilíbrio interessante entre comédia e tensão. David faz uma investigação paralela entrando no computador da filha. A conexão com a vida real do espectador é imediata. David busca amigos e vídeos em diversas redes sociais da filha. A medida que David consegue ligar os pontos e conhecer um...