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Melhor preservar a memória afetiva do espectador (Um Lugar Silencioso)



Não faça barulho. Emitir som somente em último caso para afastar ou atrair as criaturas que invadiram a terra em um ambiente apocalíptico com o intuito de sobreviver. Como o ser humano precisa estabelecer comunicação, a família de Evelyn se comunica pela linguagem de sinais, até pelo fato de terem uma filha surda e muda. No decorrer do primeiro ato de Um Lugar Silencioso o espectador observa a construção coordenada da mise- en- scène em conjunto com a apresentação dos personagens. O silêncio se faz presente pela necessidade de sobrevivência, mas também para que o público compreenda do que se trata a trama. Mesmo com um ritmo mais lento no primeiro ato a direção de John Krasinski evidencia a coordenação das cenas para criar a tensão gradual no espectador. 

A narrativa é constantemente inserida na atmosfera de suspense / terror. Todos os personagens fazem a trama acontecer com propósitos específicos. Os arcos da família envolvem o espectador, pois cada personagem contribui significativamente para o contexto explorado. Lee precisa prover o sustento e ficar de vigilância para evitar que algo aconteça com os filhos e a esposa. Porém o inevitável acontece e abala as estruturas emocionais de todos, mesmo que a dor seja literalmente abafada. Evelyn é o zelo e proteção para com os que estão ao seu redor. O pequeno Marcus sente o medo natural de um pré-adolescente em um ambiente constantemente ameaçador. O jovem precisa aprender a sobreviver, mas o medo sempre o paraliza. Regan não sente a presença das criaturas e vive em meio a dor e culpa. Na metade do segundo ato, cada personagem auxilia em algo para intensificar a buscar pela sobrevivência. E não se esqueça: a tensão só aumenta.

Todos os elementos narrativos são importantes e significativos em Um Lugar Silencioso. A fotografia com cores quentes, em especial o vermelho, reforça a tensão e o perigo. Ao alternar o silêncio com o design de som, a trama insere o incômodo no espectador o colocando no lugar dos personagens. O tempo para sentir as criaturas chegando, o pânico da família, a tensão do suspense são trabalhados intensamente pelo som e trilha sonora. A trilha é fundamental para auxiliar nos dilemas vividos pelos personagens. Quando a tensão aumenta, a trilha ganha um aspecto mais denso.


A trama em alguns momentos, especialmente no terceiro ato, nos remete ao filme Sinais de Shyamalan. O ambiente claustrofóbico da casa ganha espaço para o verde das plantações. O que durante todo o filme também lembra o diretor é o fato de não mostrar as criaturas logo no começo, somente algumas partes e durante todo o terceiro ato, elas aparecem por completo. A autoria romântica de Spielberg é também uma referência perto do desfecho. A cena da relação afetiva entre pai e filha é de tocar o coração do espectador. O silêncio se faz presente para que o elo seja estabelecido e a pausa no ritmo para o momento lembra o romantismo do diretor veterano. 

A direção de John Krasinski alterna momentos termos e a tensão sem deixar de gerar o suspense necessário para a trama. As atuações movem o filme de tal forma que o espectador acredita e sente toda a atmosfera proposta. Mesmo que o desfecho seja equivocado somente visando prováveis continuações, no imaginário do espectador o começo promissor ganha tons de um filme intenso e extremamente criativo digno de premiações. Pensar que Michael Bay está envolvido na produção uma continuação se faz desnecessária. Conhecendo o estilo Bay de ser é melhor preservar a memória afetiva do espectador.

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