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Ah, se tivéssemos um Sr. Miyagi

Você gostaria de ter ao seu lado um conselheiro, que por diversas vezes é uma figura paterna e ainda lhe ensina a arte do karatê nas horas vagas? Sim, nas horas vagas porque na trilogia Karatê Kid, "Daniel -san", um jovem esquentadinho, não somente aprende a arte marcial para as lutas finais, como leva uma lição para toda a vida: o auto conhecimento.  Sr. Miyagi tem uma paciência de jó para fazer o protagonista perceber e tentar buscar o equilíbrio interior. Lógico que Daniel enfrenta problemas típicos de um adolescente, mas aguentar a interpretação ligada no 220 de LaRusso no terceiro filme... Seu Miyagi é um senhorzinho único e está de parabéns. Deixando a ironia para mais adiante na crônica, vale retomar ao auto conhecimento. O segundo filme da trilogia é o meu predileto, pois proporciona camadas mais densas para o sensei. Uma indagação surge: Seria o personagem, indicado ao Oscar de ator coadjuvante, no primeiro longa, um coach atual? Não. Definitivamente o Seu Miyagi (se...

Dois filmes em um (Waves)

  A trama de Waves é focada no desenvolvimento das camadas dos filhos de Ronald e Catherine. Os protagonistas possuem personalidades opostas, de um lado a veia pulsante de Tyle, de outro temos a introspecçăo de Emily. Todo o primeiro ato é focado na pressão que o pai exerce sobre o filho e as consequências de um ato que transforma drasticamente a vida da família. Waves intensifica as relações familiares e como cada um reage em determinadas circunstâncias. Enquanto uma vida praticamente acaba a outra renasce.  Os elementos narrativos complementam e dialogam com intensidade as camadas do arco de Tyler. A trilha sonora o acompanha em diversos momentos significativos, seja em uma cena mais suave na praia, ou na pressão que o jovem não consegue suportar. As cores vibrantes da fotografia casam perfeitamente com a impulsividade e as reações extremas de Tyler. À medida que o protagonista reage aos acontecimentos a fotografia intensifica as cores com paletas quentes. Quando a vida do j...

O mundo virtual em mãos sociopatas (Rede de Ódio)

  O cinema Polonês ganhou notoriedade recente com o filme Corpus Christi, indicado ao Oscar de filme internacional, em 2019. O diretor Jan Komasa intensificou o estudo de personagem de Daniel no trabalho anterior e alcança novamente o espectador ao explorar com intensidade as camadas de Tomazs em Rede de Ódio. Porém, um abismo enorme separa os protagonistas. O primeiro buscava um novo sentido para a vida. O segundo almeja metas de forma fria e calculista. Apesar de distintos o diretor os conecta com uma câmera que os acompanha a cada cena.  Assim como fez em Corpus Christi , Jan segue os passos do protagonista como se a câmera fosse os olhos do espectador. Com vários closes o diretor reforça a angustia de quem assiste a gradação das camadas do protagonista. De um plágio no trabalho da faculdade de direito à atitudes extremas planejadas nos mínimos detalhes. A câmera acompanha Thomasz com planos fechados e com o auxilio da fotografia transforma a vida do protagonista em uma atm...

Meu Coadjuvante (A Barraca do Beijo 2)

Pensei, pensei e pensei... achei que o filme que acabará de assistir valia mais uma crônica do que uma crítica. Então, vamos aos devaneios sobre A Barraca do Beijo 2. Desde quando me entendo por gente e tive contato com os filmes de comédia romântica voltadas para o público adolescente, no auge da puberdade, perdi literalmente a conta de quantas vezes assisti o filme Ela é Demais. De lá pra cá, inúmeros filmes foram lançados com uma pitada de inspiração, como o ótimo Garotas Malvadas. Mas vamos escrever algumas palavras sobre a sequência. Sempre quando assistia esses filmes teen observava os coadjuvantes. Para mim, se o coadjuvante era bom, o filme já valia a pena. Foi assim com Gatinhas e Gatões, um filme de John Hughes, que abordava os conflitos da juventude, mas acima de tudo era sobre uma bela amizade.  No primeiro filme da franquia, sobre a tal barraca do beijo, a amizade também move boa parte da trama. E mais uma vez, os coadjuvantes roubam a cena. O fortão engraçado e o ami...

Um desfecho libertador (Devorar)

No primeiro ato de Devorar o espectador é apresentado ao casal Hunter e Richie e aos poucos o que poderia ser uma trama previsível sobre uma protagonista solitária ganha contornos dramáticos. Tudo precisa estar intacto no mundo de aparências dos personagens. No momento em que Hunter decide substituir o vazio e a pressão por ser perfeita pelo hábito de "devorar" pequenos objetos o espectador observa uma inversão de gêneros. O drama familiar da protagonista é substituído por um terror psicológico que peca principalmente no ritmo. Como o roteiro foca no estudo de personagem o espectador acompanha os conflitos internos e externos de Hunter. De dedicada dona de casa à uma jovem que não conseguiu superar traumas familiares. A princípio o vazio sentido pela protagonista se dá pela pressão dos parentes e do marido. A vida de Hunter gira em torno do humor de Richie, um deslize, que pode significar um breve momento de liberdade para a personagem, é sinônimo de reprovação do marido. A c...

A força do clássico está nos pequenos detalhes (O Poderoso Chefão)

Don Vito Corleone é um mafioso de gestos minuciosos e aparentemente tranquilo, até na maneira cadenciada de falar, mas por dentro carrega um turbilhão de emoções, pois precisa comandar os negócios da família. No casamento da filha, o patriarca consegue manter a calma enquanto recebe "os convidados" em um escritório reservado para a troca de favores. O espectador observa como os negócios são feitos e também como a presença de Corleone impõe medo e respeito. O roteiro enfatiza o poder dos laços familiares e como Don Vito transfere o legado (ou seria fardo?) para o filho. No primeiro ato,  Francis Ford Coppola alterna momentos de tensão e confraternização familiar. É o contraste dos poderes: dos laços familiares e do nome Corleone. O roteiro explora também as personalidades dos membros da família, mas Michael é o que ganha destaque. Michael deseja um casamento tranquilo com Apolônia, mas " um recado" o faz retornar. O arco do personagem é repleto de nuances, pois ele ...

Jodie é digna de aplausos (O Silêncio dos Inocentes)

Esses dias estava participando de uma live sobre cinema e perguntei o motivo pelo qual Jodie Foster não recebia os devidos méritos pela atuação em O Silêncio dos Inocentes. O crítico prontamente respondeu:" Porque ela simplesmente divide as atenções com um dos maiores vilões do cinema". Ok, Anthony Hopkings está intenso e realmemte sentimos falta de Hannibal em cena, mas ao rever o clássico é preciso notar que Jodie também é igualmente importante para a narrativa como um todo. Na trama Clarice é uma agente do FBI que investiga o assassinato de várias mulheres. O assassino retira a pele das jovens. O roteiro instiga o espectador em núcleos distintos: a investigação policial para chegar ao suspeito e o auxilio de Hannibal proporcionando pistas para que a jovem entenda a mente do assassino. Existe uma atmosfera tensa entre os personagens que permeia toda a narrativa. Anthony e Jodie intensificam a tensão e aos poucos de forma meticulosa Hannibal apresenta ao espectador um pouco...