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A cegueira e alienação persistem (O Mês que Não Terminou)

O documentário de Francisco Bosco e Raul Mourão vai além dos demais longas políticos lançados atualmente e busca ampliar os lados opostos da direta e esquerda. Os atos exploram o cuidado dos diretores ao enfatizar as consequências do mês de junho de 2013, onde vários movimentos sociais foram para as ruas reivindicar direitos. Do movimento inicial contra o aumento dos valores da passagem de ônibus até o radicalismo extremo da esquerda e direita que culminou na eleição de Jair Bolsonáro. O documentário avança nos anos e explora depoimentos que reverberam e auxiliam na compressão da revolta e raiva que tomou conta do país. Parecia inexplicável como os debates transformaram-se em verdadeiras mini guerras onde todos ainda permanecem cegos e surdos dentro de suas verdades e bolhas virtuais. O filme explica com depoimentos de cientistas políticos, filósofos, economistas e figuras conhecidas dos dois extremos como as ruas foram tomadas por grupos sociais e amplia o olhar do espectador ...

Dulcina vive intensamente em cada artista (Dulcina)

A diretora Glória Teixeira conta a trajetória de Artista Dulcina de Moraes em um documentário que alterna ficção e realidade. A diretora mescla depoimentos de companheiros dos palcos, alunos e atrizes interpretando a protagonista. As atrizes que interpretam Dulcina também são entrevistadas para relatar momentos memoráveis da atriz. Dentre as características que permeiam todos os depoimentos estão o bom humor e a rigidez da artista com os alunos. Quando o documentário foca em alunos da faculdade em Brasília, alguns relatavam que Dulcina chegava a dar tapas na cara dos alunos quanto eles não faziam o que ela queria.  Sou atriz e minha primeira peça de teatro foi no Teatro Dulcina, no Conic. Sabia da dimensão da Artista que leva o nome do teatro, porém com o documentário a importância de Dulcina para as artes cênicas brasileira me fez repensar o quanto significou ter pisado em um palco tão significativo. A Artista vendeu tudo que tinha no Rio para fincar raízes em Brasília. O ...

Estereótipos reforçados com humor (Alice Júnior)

Alice Júnior é um filme com público-alvo específico: o adolescente. A protagonista é extremamente moderna e cheia de atitude. Ela possui um canal no you tube e nele dialoga abertamente de forma corriqueira sobre aceitação e preconceito. O pai de Alice trabalha em uma empresa voltada para a fabricação de perfumes. Disposto a encontrar uma fragrância diferenciada ele decide mudar para Araucárias do Sul e extrair de uma pinha a essência para um novo perfume. É  o começo do pesadelo na vida da jovem Alice. A cidade pacata e interiorana não está preparada para receber uma jovem trans e do dia para a noite Alice precisa enfrentar batalhas que pareciam vencidas na cidade grande.  Com uma linguagem moderna e inserções constantes na tela o filme ganha um ritmo leve e dinâmico.  A protagonista dialoga diretamente com o adolescente conectado no mundo virtual e a imersão do espectador é imediata para este público alvo. Com uma trilha pop e roteiro causado no humor o roteiro t...

O reflexo da realidade (Piedade)

A cidade praiana de Piedade carrega consigo o peso da vida real. No filme de Cláudio Assis a frase: " A arte imita a vida" ganha contornos verídicos. Omar faz questão de alertar o sobrinho olhando para a imensidão do mar: " Há muito tempo atrás, isso aqui era cheio de gente". A praia está abandonada e o jovem não pode mais mergulhar no mar. O isolamento da cidade é reflexo da modernidade, onde uma empresa petrolífera, na figura de Aurélio, quer comprar o bar da família de Dona Carminha, o único local que ainda guarda lembranças e resiste ao tempo. A assinatura de Cláudio Assis está no tom de denúncia que percorre toda a narrativa, além do sexo que entrelaça os personagens. Mais o que realmente chama a atenção é  o pé no freio de Assis deixando a abordagem crua que permeava os demais longas para dar passagem ao tom mais sensível ao abordar os arcos dos personagens. O diretor presa por um ritmo mais contemplativo para interligar as subtramas a trama central. A...

Atores competentes fazendo arte (A Grande Mentira)

Mirren e McKellen, duas personalidades conhecidas pela versatilidade. Os nomes exercem fascínio no espectador. Ver ambos em cena é sempre uma grata surpresa. Em A Grande Mentira a dupla alterna momentos de protagonismo e domina seus respectivos personagens. No primeiro ato do longa Ian McKellen apresenta ao público um personagem dúbio que vive de golpes. Ao marcar um encontro em um site virtual, Roy conhece Betty e logo formam um casal. A dupla de protagonistas vê um no outro, mais do que a companhia, um acalento para os dias solitários. O espectador sabe que Roy engana Betty desde o primeiro momento. Apesar de o filme focar boa parte no estudo de personagem e no protagonismo de Ian, Helen rouba a cena deixando o público atento aos mínimos detalhes. O diretor Bill Condon  trabalha a atmosfera gerando o suspense necessário principalmente no terceiro ato em que algumas reviravoltas surgem e prendem o espectador. Não existe pressa ao conduzir a trama. Bill deixa nas mãos dos at...

A mensagem que atinge o espectador (Reino Gelado: A Terra dos Espelhos)

O Reino Gelado: A Terra dos Espelhos possui alguns problemas de roteiro, montagem e direção. A animação passa pelos personagens de maneira apressada fazendo com que os espectadores não se importem com a trama apresentada ao longo dos atos. A jovem Gerda vive um dilema de deslocamento dentro na família. Todos possuem poderes mágicos, menos ela que sempre se sentiu diferente. Quando o Rei Harald aprisiona todos os mágicos e seres que não são humanos na terra dos espelhos, a protagonista precisa salvar não somente todos da região como também descobrir o seu valor. O grande problema que está presente durante todo o filme é a pressa ao abordar o arco dos personagens. Não existe o cuidado e tempo para que as reviravoltas sejam assimiladas pelo público. No primeiro ato o cuidado ao apresentar a família de Gerda é explorado de forma coesa. Após a protagonista ter que salvar sua família o roteiro não consegue focar nas subtramas e o longa transmite a sensação de confusão com a entrada de no...

Quando a temática ultrapassa o campo da ficção (A Vida Invisível)

Filmes que acompanham a vida do protagonista por décadas geram um envolvimento quase que instantâneo no espectador. Em A Vida Invisível o público torna-se íntimo da vida de duas irmãs na década de 50. Eurídice e Guida são opostos que se atraem. A primeira, introspectiva; a segunda, expansiva. Guida já pensa muito além do seu tempo e reflete sobre o papel da mulher na sociedade. Já Euridíce, na sua introspecção,obedece a figura paterna e se casa abrindo mão dos sonhos. Guida retorna para casa solteira e grávida. Viver em um conto de fadas estava nos seus planos, mas a realidade a fez voltar achando que por estar grávida o pai poderia lhe acolher. Mais uma vez a mordaça feminina é ressaltada na figura materna. Ana recebe a filha de braços abertos, mas o pai impõe a autoridade e é taxativo ao afirmar: "Se você aceitar Guida vai para a rua com ela.". Sem opção, a filha vai embora deixando a mãe com o tormento e a saudade. Ao longo dos atos a trama ressalta a ausência de uma ...