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Quando a temática ultrapassa o campo da ficção (A Vida Invisível)


Filmes que acompanham a vida do protagonista por décadas geram um envolvimento quase que instantâneo no espectador. Em A Vida Invisível o público torna-se íntimo da vida de duas irmãs na década de 50. Eurídice e Guida são opostos que se atraem. A primeira, introspectiva; a segunda, expansiva. Guida já pensa muito além do seu tempo e reflete sobre o papel da mulher na sociedade. Já Euridíce, na sua introspecção,obedece a figura paterna e se casa abrindo mão dos sonhos. Guida retorna para casa solteira e grávida. Viver em um conto de fadas estava nos seus planos, mas a realidade a fez voltar achando que por estar grávida o pai poderia lhe acolher. Mais uma vez a mordaça feminina é ressaltada na figura materna. Ana recebe a filha de braços abertos, mas o pai impõe a autoridade e é taxativo ao afirmar: "Se você aceitar Guida vai para a rua com ela.". Sem opção, a filha vai embora deixando a mãe com o tormento e a saudade. Ao longo dos atos a trama ressalta a ausência de uma irmã na vida da outra e como o sentimento as une apesar da distância. 

O roteiro de Karim Ainouz apresenta mais do que a vida das irmãs Gusmão, a trama ressalta a invisibilidade das mulheres na década de 50. Eurídice sentia uma empolgação genuína e admiração pela irmã viver além de seu tempo. Apesar de Guida afirmar que faria sexo somente após o casamento, ela conta para a irmã que proporcionou ao namorado algumas liberdades. As irmãs tomam rumos distintos, mas no pensamento elas sempre estiveram juntas. Os atos alternam os momentos marcantes da vida das irmãs e como cada uma sofreu com a opressão da sociedade. Ser mãe solteira era viver o preconceito diário de uma sociedade machista. Guida vive para sustentar o filho e deseja reencontrar a irmã fora do país. Para levar o filho na viagem, ela precisa da autorização do pai da criança. Como fazer se Guida é o pai e a mãe do pequeno? Já Eurídice vive uma das piores situações que a mulher pode passar e com o tempo precisa aprender a suportar o companheiro por décadas. Com um jeito todo peculiar a personagem consegue passar na prova para estudar música, mas precisa lidar com a reprovação do marido, que além de machista, ainda a questiona sobre viver eternamente no passado. O tempo passa para as irmãs e já na terceira idade Eurídice finalmente consegue encontras pistas do passado. Mais uma vez a figura masculina dita às regras. Existe no roteiro a crueldade ao retratar a vida das irmãs no desenvolvimento do arco dos personagens masculinos. O patriarca, Manuel Gusmão, sempre autoritário é o responsável pela separação das irmãs e Antenor é o reflexo do machismo sentido nos dias atuais. As personagens femininas coadjuvantes são o apoio das irmãs ao longo das décadas. Cada personagem possui um arco importante para o suporte das irmãs.

A direção de Karim Ainouz acompanha as protagonista e proporciona para ambas igualdade de tempo em cena. Cada uma possui o tempo necessário para que o espectador estabeleça empatia pela trajetória das irmãs Gusmão. Em momentos precisos da vida das personagens o diretor filma com enquadramentos fechados reforçando a sensação de isolamento e ao mesmo tempo de sufocamento perante a vida. A cena em que Eurídice perde a virgindade é captada por um olhar realista do diretor. A personagem está completamente entorpecida e mesmo assim o marido a estupra na noite de núpcias. Um alerta para o espectador ressaltando que as lentes do diretor não vão poupar ou romantizar a vida das protagonistas. Já Guida, para proporcionar uma partida digna para a amiga que tanto lhe apoiou, se entrega também de forma forçada para o homem que fornece medicamentos para aliviar a dor de Filomena. A cena novamente é filmada de forma realista focando em um close todo o olhar sofrido da personagem. O close retorna principalmente nas cenas em que Eurídice está idosa. Outro elemento narrativo fundamental que faz o espectador sentir o passar das décadas é o figurino das irmãs. Guida, quando nova, usa roupas com tons fortes e vestidos mais chamativos. Eurídice permanece discreta com roupas voltadas para tons mais suaves. Como a música está presente de forma marcante na vida de uma das irmãs, a trilha estabelece um ritmo essencial para a trama. Por vezes o trilha sufoca não somente a vida das protagonistas como também o envolvimento do espectador. O excesso do elemento prejudica em algumas cenas a sensibilidade presente na narração em off de Guida.


A Vida Invisível coleciona prêmios em diversos festivais e eleva novamente o nome do cinema nacional. O filme foi o escolhido para representar o Brasil na categoria de filme internacional no Oscar. A academia aprecia filmes que abordam temáticas sensíveis e que acompanham a vida dos personagens ao longo dos anos. A sensibilidade e crueldade com que a vida das protagonistas é retratada ressalta o resultado do trabalho do trio: Carol Duarte, Julia Stockler e Fernanda Montenegro. A montagem é responsável por estabelecer uma conexão do espectador com a vida das irmãs. Existe um equilíbrio constante do elemento narrativo ao enfatizar os conflitos internos das protagonistas. Ambas sobrevivem pensando uma na outra ao mesmo tempo em que permanecem apáticas perante os acontecimentos. Julia apresenta Guida de forma intensa para o espectador no primeiro ato, porém, o olhar e a postura corporal da atriz reforçam a ausência de vida, mesmo lutando de forma digna para criar o filho. Carol envolve o espectador pela música que a faz esquecer do mundo dos afazeres domésticos. Agora Fernanda Montenegro é dona do terceiro ato e atinge em cheio a sensibilidade do espectador. O close se faz necessário para captar toda a intensidade de Fernanda em tão pouco tempo de tela. O espectador se deixa levar pelo domínio do texto e presença da atriz em cena. Porém, o que mais chama a atenção do público é que as temáticas abordadas ultrapassam facilmente o campo da ficção. 

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