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Um novo recomeço (It- Capítulo Dois)


Após a sessão de It- A Coisa, em 2017, duas sensações eram notáveis: tensão e leveza. As sensações travaram um duelo constante durante o filme. Acompanhar os adolescentes e tudo que eles enfrentaram foi realmente uma grata surpresa. Ser adolescente é um misto de sentimentos, mas a leveza se fez presente até nos piores momentos. Tudo na trama de It girava em torno da superaçāo dos traumas vividos pelo grupo. Os pequenos jovens cresceram e enfrentam o Pennywise 27 anos após os acontecimentos de Derry. Algumas crianças desaparecem e Mike liga para os demais conhecidos que viveram toda a tensão provocada pelo palhaço. A reunião do grupo acontece e algumas lembranças são resgatadas. Não dá para dizer que Os Otários são amigos. A vida os fez tomar caminhos distintos e apenas Mike fica na cidade obsecado pelos acontecimentos que marcaram o grupo.

Gary Dauberman assina novamente o roteiro da sequência e destaca por meio de flashbacks a leveza tão característica que unia o grupo. O peso de carregar por tanto tempo os acontecimentos de 27 anos são ressaltados no arco de cada personagem. O arco de todos é desenvolvido ao longo dos atos, apesar de o espectador sentir o cansaço pela duração da narrativa. A primeira cena poderia facilmente ser substituída por um flashback que funciona perfeitamente em todo o filme. Além do começo desnecessário somente para destacar o retorno de Pennywise, um personagem volta extremamente solto na trama. Henry escapa do hospital psiquiátrico e também persegue o grupo. Os demais personagens possuem arcos complementares dos abordados no filme anterior. Cada um com características marcantes e traumas intensos que voltam à tona. Existe um momento específico para cada um, pois Mike reforça que uma das metas para derrotar Pennywise é preciso que todos enfrentem seus medos sozinhos. Apesar de alguns momentos convenientes dos personagens ao encontrar soluções para derrotar o palhaço, o terceiro ato é todo voltado para a união do grupo, o confronto final e o resgate da amizade que estava adormecida.

O diretor Andy Muschietti retorna para o desfecho, porém a diferença ao conduzir o filme é gritante se comparada com o trabalho realizado em It- A Coisa. No primeiro filme a atmosfera prezava pela calma ao criar à tensão em torno dos personagens. Na sequência a pressa é constante e a tensão muitas vezes se perde por completo. A pressa é estabelecida também por planos tortos e previsíveis. No primeiro ato os personagens são apresentados já adultos e cada um é ressaltado por um plano diferenciado reforçando uma ideia camuflada de criatividade na direção. Andy retoma a seguraça no terceiro ato prendendo o espectador no confronto final dos adultos com Pennywise. Somente na cena de novas crianças que o diretor trabalha de forma envolvente a tensão, o restante da trama é repleta de jump scare. Infelizmente a presença do palhaço perde força na sequência. O destaque vai além do terceiro ato com a direção de arte cuidadosa ao destacar diversos objetos cênicos com a cor vermelha tão vibrante de Pennywise. A casa de Mike complementa o arco de aprisionamento do personagem. A casa é repleta de livros e extremamente apertada transmitindo a sensação de aprosionamento no contexto voltado pelos traumas vividos anteriormente.


Outro ponto que funciona com menos intensidade é a química do elenco adulto. A comparação é inevitável até pelo resgate do elenco adolescente nos flashbacks ao longo do filme. Se o elenco jovem elevou o primeiro capítulo, o elenco adulto enfraquece e muito a sequência. O destaque fica para o ator Jay Ryan (III) como Ben. O trabalho do ator reflete perfeitamente a composição do personagem. Ele estuda os trejeitos de Jeremy Ray Taylor e acrescenta o peso dos anos vividos carregando o trauma do garoto gordinho da adolescência. James McAvoy  também carrega de forma mais intensa o peso de somente mentir que estava doente no dia que o irmão desapareceu. Alguns trejeitos presentes em outros trabalhos do ator aparecem em Bill. Jessica Chastain que já trabalhou em alguns projetos com James poderia ter uma química maior com o ator, porém a Beverly adulta não retrata em nenhum momento a força de sua personagem na adolescência. A atriz compõe uma personagem extremamente retraída com um timbre de voz infantil. O restante do elenco é responsável pela comicidade do primeiro filme. Bill Hader eleva o humor em momentos tensos e a química com James Ransone funciona como resgate da nostalgia do filme anterior. Mesmo com mais destaque na trama Isaiah Mustafa apresenta uma construção para Mike instável. Uma pena que assim como no primeiro capítulo o personagem continue sendo coadjvante perante os demais.

It- Capítulo Dois possui uma atmosfera mais tensa com relação a composição dos atores que compreenderam os personagens e os traumas vividos em decorrência de acontecimentos passados. O problema é o ruído na química do grupo ao longo do filme. As cenas no segundo ato quando os atores estão separados funcionam melhor do que quando estão juntos. O filme envolve o espectador no terceiro ato quando Andy Muschietti conduz o confronto do grupo com Pennywise de forma tensa apesar de apressada. A sequência perde peso também pelo fato dos personagens adultos serem simplesmente adultos. Apesar de inferior ao primeiro It- Capítulo Dois resgata a amizade e reforça a superação de traumas para um novo recomeço. 

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