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Quando o protagonista é o clichê (The Mustang)

Uma narrativa consegue emocionar pela previsibilidade? The Mustang é um exemplo de como o clichê é explorado em alguns elementos narrativos para envolver o espectador em torno das emoções. Na trama, Matthias Schoenaerts  - que apresenta nuances do personagem de Ferrugem e Osso - imprime  brutalidade e intensidade no olhar. O protagonista é preso e transferido para um programa de reabilitação visando o controle de seu comportamento violento, nele os detentos precisam domar os cavalos para que sejam leiloados. A narrativa repleta de momentos previsíveis envolve o espectador e emociona na temática central: a relação entre Mustang e Roman. Um é a extensão do outro. É importante perceber que a direção sabiamente compreende ao máximo o alcançe de Matthias, que com a mesma intensidade física demonstra uma vulnerabilidade no olhar que cativa o espectador. Neste momento, aliás, durante toda a narrativa, o espectador é bombardeado por uma infinidade de closes. The Mustang é clarame...

Está tudo bem (Barbie)

Barbie, de  Greta Gerwig , possui uma temática feminina? Sim, no primeiro ato a infância de muitas mulheres que brincavam com acessórios, casas, piscinas e  bonecas ganham o devido destaque. O acerto da diretora é dar vida à Barbielândia nos mínimos detalhes e, consequentemente, estabelecer uma identificação direta com o público-alvo. O roteiro da dupla também visa os lucros da Mattel e apresenta os mais variados tipos de bonecas/ coadjuvantes, assim, nos faz reviver momentos de pura nostalgia. O filme começa a pecar no humor exagerado, quando a protagonista fala com todos e não consegue parar. Aqui,  o inevitável aconteceu: enquanto a nostalgia me aproximava, o humor  afastava. Bom, como já tinha em mente que boa parte do longa seria um obstáculo para mim, outros aspectos poderiam me envolver na busca da boneca em compreender o quanto é difícil ser humano. Na trama, após alguns devaneios, Barbie procura,"o oráculo", uma referência mais do que direta à Matrix, um mar...

Um pouquinho de Malick (Oppenheimer)

Um dos filmes mais intrigantes que assisti na adolescência foi Amnésia, do Nolan. Lembro que escolhi em uma promoção de "leve cinco dvds e preencha a sua semana". Meus dias foram acompanhados de Kubrick, Vinterberg e Nolan. Amnésia me deixou impactada e ali  percebi um traço importante na filmografia do diretor: o caos estético. Um caos preciso que você teria que rever para tentar compreender a narrativa como um todo. Foi o que fiz e  parece que entendi o estudo de personagem proposto por Nolan.  Décadas após o meu primeiro contato, sempre que o diretor apresenta um projeto, me recordo da época boa em que minhas preocupações eram fórmulas de física e os devaneios dos filmes. Pois chegou o momento de Oppenheimer, a cinebiografia do físico que carregou o peso de comandar a equipe do Projeto Manhattan,  criar a bomba atômica e "acabar" com a Segunda Guerra Mundial. A Guerra Fria já havia começado entre Estados Unidos e a Alemanha, no quesito construção da bomba, a ten...

Me fez sentir....(Beau tem Medo)

Leos Carax e Holy Motors. Criador e Criatura. O ano foi 2021, (Holy Motors é de 2012, mas só descobri recentemente. Antes tarde, do que nunca), quando fiquei totalmente imersa no turbilhão de sensações que Carax me proporcionou. Se você me perguntar algo da trama e dos personagens, a única resposta que ainda tenho é: não tenho. Paula, tá tudo bem? Não sei. Só sei que não consegui ficar indiferente com a jornada de Beau tem Medo. Explicar sensações é um tanto quanto complexo e pessoal. Cada um vai sentir a obra de Ari Aster de uma maneira única.   Na trama, Beau é um homem, na mente de uma criança,  que delira e sente traumas provocados por ataques de ansiedade e pânico. O que Beau sente é a ausência paterna e sufocamento materno.  Joaquin Phoenix nos faz um convite para acompanhá-lo na jornada do pequeno grande Beau. O corpo do ator treme, o olhar é paralizante e a voz é de uma criança desamparada em busca do autoconhecimento. É de uma entrega sem limites. Não é à ...

Vin Diesel e Lua de Cristal (Velozes e Furiosos 10)

"Tudo pode ser, se quiser será Sonho sempre vem pra quem sonhar Tudo pode ser, só basta acreditar Tudo que tiver que ser, será".   Quem não lembra da icônica música da Xuxa, no filme Lua de Cristal? O que a letra está fazendo no texto de Velozes e Furiosos 10? Nada, ou tudo, se você quiser, será! A letra possui ligações com o filme de Vin Diesel  pelo roteiro repleto de frases de efeito e por Jason Momoa, que mais parece um desenho animado do programa da Rainha dos Baixinhos, que aquecia o coração das crianças nas manhãs da Globo. A música persegue o filme porque Xuxa tinha como público- alvo as crianças, certo? Ok, como definir o vilão de Jason? O personagem é estremamente caricato. A forma como o ator proporciona risos no espectador é digno de coragem. A escrita é legítima e verdadeira. É preciso coragem para fazer um personagem que sempre está na corda bamba e pode cair à qualquer momento, porém, Jason segura às pontas e nos faz refletir que ele é mesmo um psicopata qu...

Sempre os detalhes... (Creed III)

Vivemos em uma época em que os fãs movem céus e terras por personagens queridos. Na intensidade das emoções, ainda temos a sensação de que o próprio ator não sabe onde começa e termina o personagem. Estou falando de Rocky ou de Stallone? Nem a pessoa que escreve sabe ao certo. E está tudo bem, aliás, tudo ótimo, porque Stallone ou Rocky são de uma sensibilidade e carisma sem tamanho. No imaginário dos fãs, Rocky estaria em Creed III, porém, após assistir o filme, não caberia uma pequena participação para Rocky, afinal, em Creed II , o protagonista finalmente libera a última fera que ainda está presa no porão: o afeto com o filho. Não seria justo com um personagem tão emblemático apenas participar com um pequeno arco.  Creed III marca a estreia de Michael B. Jordan na direção. Na trama, Adonis precisa lidar com traumas do passado e retornar aos ringues. Como sempre, o esporte é o pano de fundo para o que sempre impulsionou a franquia desde o primeiro filme em que o protagonista foi ...

A caixa de pandora de Aronofsky (A Baleia)

Na mitologia grega, a caixa de pandora foi criada para conter os males mundanos, principalmente os do corpo e da alma. Em A Baleia,  Darren Aronofsky  abre a caixa de pandora de Charlie, um professor de literatura meigo, que enfrenta tudo o que o objeto lhe proporciona, inclusive, a esperança nos outros. Vale destacar que o protagonista está extremamente enfermo por sofrer de obesidade mórbida. Ele pesa mais de 270 kilos e a única esperança é passar alguns momentos com a filha adolescente. Aronofsky faz questão de abrir sempre a caixa de pandora de suas criaturas, porém Charlie recebeu uma caixa repleta de superficialidade em um roteiro raso. A Baleia é a adaptação da peça de teatro de Samuel D. Hunter, por essa razão existe o conflito no estudo de personagem na narrativa, os males do corpo e da alma estão lá, porém explorados de maneira equivocada. A ausência na assinatura do diretor faz o espectador se afastar por completo de Charlie. Sentimos pena, muita pena do SER HUMANO....