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Sammy, uma tesoura e a trégua (Os Banshees de Inisherin)

O que fazer quando o seu melhor amigo quer simplesmente acabar com a amizade e usa a justificativa que você é chato e que ele não quer perder tempo com conversas frívolas. Colm necessita mais do que nunca deixar uma marca neste mundo, uma música impactante. Sem compreender e questionando o fato de realmente ser considerado chato, Pádraic passa boa parte do filme tentando reatar os laços com o amigo. Cada tentativa é um dedo a menos para Colm, uma tentativa frustrada e ausente de esperanças para o tão sonhado legado musical. Os Banshees de Inisherin toca em temáticas atuais  e  tem como pano de fundo a Guerra Civil Irlandesa. O quarteto principal vive em um pequeno vilarejo, Inisherin, absorvendo a atmosfera tensa da década de 1920. Enquanto Irlandeses travam Guerra entre si, o mesmo acontece com os amigos. A batalha entre eles é explorada em um crescente: diálogos intensos e engraçados, para, posteriormente, observarmos atitudes irracionais. o roteirista  Martin Mcdonald ...

Ah, os elementos narrativos... (Close)

Close disputa o Oscar de filme internacional, em 2023, com Nada de Novo no Fronte, provavelmente, perderá, porém não chamou a atenção dos votantes à toa. A trama gira em torno de Léo e Rémi, amigos de treze anos, que após um acidente muda à vida de todos e faz o espectador refletir sobre diversas temáticas. A previsibilidade do roteiro não impede o público de sentir todas as emoções que o longa proporciona. O diretor Lukas Dhont retoma alguns questionamentos apresentados em Girl, como a pressão do adolescente em pertencer e ser abraçado sem preconceitos. O abraço inclusive é explorado com intensas e divergentes conotações. Pode representar uma fuga, perdão e aconchego.  Como nada na composição de uma cena é por acaso, os elementos narrativos apresentados dialogam em um crescente ao construir a relação entre os amigos, para desconstruí-los aos poucos. Lukas, em repetidos takes, nos mostra os adolescentes andando de bicicleta. Rémi sempre à frente, nos fazendo refletir sobre a natura...

Sammy e o conselho de Tio Boris (Os Fabelmans)

Liam Neeson comentou em uma entrevista, na época que divulgava A Lista de Schindler, que trabalhar com Spielberg era como ser uma marionete. Assistir Os Fabelmans me fez compreender a afirmação que o ator fez décadas atrás. No decorrer da semibiografia do diretor, todos os personagens são dirigidos, não de forma fluída, assim, uma protagonista tomou o lugar de Sammy durante todo o filme: a mão de Steven. Porém, um detalhe fez toda a diferença enquanto eu assistia: a experiência do elenco adulto em cada cena. Existe um determinado momento, que a família precisa adaptar-se com as mudanças constantes que o trabalho de Burt Fabelman provoca em todos. Com os deslocamentos, que ganha aspectos de Road Movie, o marido entra em casa, com a mulher nos braços. A forma como Spielberg  dirige essa cena soa um tanto quanto cinematográfica ao extremo, se não fosse por um pequeno detalhe: o foco na expressão desoladora de Mitzi Fabelman. E essa sensação da mão de Steven, me acompanhou porém, o min...

Deixe Ana respirar (Blonde)

O roteiro de Blonde utiliza em alguns momentos a narração em off, nos envolvendo em um fio de expectativas que Norma Jeane cria em relação ao pai. Nas últimas cartas, Ele escreve: " Queria muito te conhecer". Essa frase é emblemática, pois o espectador é o olhar paterno em diversas cenas. Passamos boa parte do tempo querendo conhecer a protagonista, porém o roteiro gira em círculos e não consegue sair do lugar. Vale destacar que o filme de Andrew Dominik é baseado na obra literária de Joyce Carol Oates, onde tudo em torno da vida de Marilyn é ficção e extremamente amplificado. Dominik intensifica ainda mais o que Monroe sofreu ao tentar encontrar dentro de si a pequena Norma que foi abandonada no orfanato ainda criança. Além do roteiro não deixar o espectador respirar por focar somente em momentos trágicos, a fotografia é utilizada de forma aleatória. Em momentos dramáticos, ela ganha força em preto e branco, mas também ganha vida em cores quando Norma tenta se esforçar ao má...

Sobre ego,criatividade e autoria.

Após assistir ao excelente Lamb , alguns devaneios tomaram boa parte do meu tempo. Escutava uma música, escrevia críticas, dançava feito louca (faço isso sempre e você deveria tentar também porque faz um bem danado pra alma) e a criança não saía da minha cabeça. Para realmente seguir em frente, eu teria que responder uma pergunta: até que ponto nos envolvemos por completo na autoria de um diretor(a)? Com Lamb, eu tive uma luz certeira para essa indagação: é preciso que tudo esteja em ordem, ou melhor, que o caos criativo seja coerente com o que é proposto logo no começo. O roteiro foca no luto, uma maneira inovadora de ressaltar a temática já explorada constantemente no cinema. Eu queria e precisava saber onde o filme iria me levar. Ser conduzida pela narrativa como um todo é fascinante, e, depois de final, não tive dúvidas: Lamb era sobre luto, mas acima de tudo sobre pertencimento em meio ao caos criativo.  Recentemente tive a oportunidade de escolher um filme extremamente aleató...

Autoria, referências, símbolos e o imaginário (NOPE)

Antes de "tentar" escrever sobre NOPE é preciso destacar algo relevante que pode ser um guia durante todo o filme: a expectativa. Aprendi um bucado com Spielberg, sempre Ele, quando assisti Cavalo de Guerra. Que decepção!!!! Saí atordoada do cinema com tamanho melodrama e o peso da mão na direção. Com NOPE podemos traçar o mesmo paralelo.  Jordan Peele presta diversas homenagens ao diretor e aqui a mão... A trama é simples e envolve o espectador pelas pistas e símbolos que Jordan explora aos poucos no decorrer da narrativa. Daniel Kaluuya , só olhe, que interpretação, nos apresenta um O.J. introspetivo e extremamente focado em não perder o rancho da família. Quando o pai falece ele tenta seguir em frente, porém, a irmã sempre o motiva de alguma forma. Personalidades distintas que se complementam. Outro personagem importante é Jupe, que foi ator mirim famoso e explora economicamente seu passado criando um parque temático voltado para eventos "surpreendentes", ao mes...

Um longo caminho (AUTODECLARADO)

Qual é a função de um documentarista? Focar em uma temática e destrinchá-la ao máximo com questionamentos relevantes. É o que Maurício Costa, diretor de Era de Gigantes (2017) e Uber X Táxis  (2020), ambos documentários,  com estreias no Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, faz em Autodeclarado. A temática central é a questão das cotas raciais, porém, outras subtramas surgem com maior potência.  A base e o que move o documentário são as cotas para o processo de cotas em Universidades Federais e Concursos Públicos. Um longo debate é proposto com personagens que envolvem o espectador. Um aspecto importante que sempre está presente no debate entre os personagens é se "ser considerado pardo" é pertencer realmente aos movimentos raciais. Uma pessoa parda teria mais dificuldades em ser considerada negra, pelos traços físicos, como cabelo e lábios. Maurício foca nesse aspecto com maior profundidade e faz o espectador refletir se quem é pardo sofre o mesmo preconceito que u...