Pular para o conteúdo principal

Postagens

Nunca a ficção foi tão real (@arthur.rambo- ódio nas redes)

O diretor Laurent Cantet possui um principal objetivocom @arthur.rambo- ódio nas redes: levantar questionamentos. Em praticamente todas as cenas, após o plot twist explorado no roteiro, a vida do protagonista vai do céu ao inferno em questão de segundos. Karim D. participa de entrevistas para divulgar o novo livro e todos o cobrem de elogios. O céu é o limite, por falar em limite, todos os questionamentos presentes no roteiro giram em torno do debate sobre os limites das redes sociais, especificamente o twitter. Após alguns eventos intensificados no roteiro, todos os amigos e familiares se afastam de Karim. A cada encontro com um coadjuvante, Laurent sabiamente envolve o espectador com indagações pertinentes e extremamente atuais: Sou a mesma pessoa de anos atrás? Penso de forma distinta? Como refazer uma imagem que já está estabelecida no imaginário dos leitores? Uma pessoa que foi fruto do meio pode mudar?Seus amigos são realmente amigos em todas as situações?E quando o abalo atinge ...

Tormenta do mar e da vida (Mar de Dentro)

  A tormenta do mar de Manuela começa quando a protagonista descobre uma gravidez inesperada. Com a carreira profissional em ascensão, um questionamento surge: ser ou não mãe? Após a decisão conjunta, Manuela e o parceiro decidem ter o bebê. A tormenta torna-se mais intensa quando uma tragédia interrompe os planos do casal. Mar de Dentro é um estudo de personagem sobre as angústias da maternidade e principalmente sobre sororidade. A licença  maternidade é um verdadeiro caos, onde Manuela precisa lidar com as dores do leite que não desce e quando finalmente consegue o sofrimento é tamanho que surge a indignação:" Oh, filho!". Uma subtrama importante são as coadjuvantes que auxiliam Manuela enquanto ela achava que poderia dar conta de tudo sozinha. O conflito de gerações também é explorado na figura da avó paterna que deseja ter o neto para si. Já próximo ao retorno do trabalho, três mães são exploradas: duas babás e a protagonista. A mais nova, fica com o bebê no período notur...

Você pulou da poltrona?(Belfast)

Belfast é um filme tão lindo, mas tão lindo, que o espectador acaba por focar somente na estética e não consegue apreciar os demais elementos narrativos. O projeto semibiográfico de  Kenneth Branagh  é realizado com tamanha paixão que o diretor e roteirista apresenta domínio técnico em vários momentos, porém, o viés pessoal não é registrado pelas câmeras. Tudo está no devido lugar: diversidade de enquadramentos para expressar as angústias do pequeno Buddy; a mise-em-scène que reforça o isolamento de Ma; os closes nos avós ressaltando ao máximo o trabalho dos veteranos e a fotografia em preto e branco que deveria aproximar o espectador das emoções dos personagens. Tudo parece tão esquematizado que os sentimentos desaparecem por completo. Em uma cena emblemática a inocência do pequeno Buddy é perdida quando ele é inserido no confronto entre católicos e protestantes. O mesmo escudo que faz a imaginação do protagonista ir longe achando que brinca em uma batalha serve de proteção d...

Como esconder uma fruta podre? (A filha perdida)

O título do longa nos apresenta não somente o turbilhão de sentimentos que vive a protagonista perdida em devaneios passados, como também sugere, no bom sentido, o sentimento calcado na excelente interpretação um tanto quanto perdida de  Olivia Colman . Perdida no sentido de não saber exatamente como lidar com o peso das decisões tomadas no passado que à princípio faziam sentido para uma jovem que abdicou da carreira para cuidar das filhas pequenas. Perdida no espelho que é puro reflexo de uma jovem igualmente sufocada pela maternidade. Em determinado momento, quando Nina acredita que o sumiço da boneca da filha vai passar e a pequena irá focar em outros brinquedos, a experiência ligada ao sofrimento faz com que Leda prolongue os sentimentos da inexperiente mãe. É um turbilhão de sentimentos ver Leda intensificar a tal ponto o sofrimento de Nina que perto do desfecho a protagonista permanece anestesiada. Ela somente diz: "Foi por diversão!". Com uma pitada de vingança, Leda g...

O viés religioso é apenas a ponta do iceberg (Benedetta)

Cruzada de pernas fatal, vítima que se vê atraída pelo agressor, máquina que possui sentimentos e mulher que realiza milagres. Essas são algumas temáticas que permeiam filmes do diretor  Paul Verhoeven . O que elas têm em comum? Polêmica. Desde sempre o diretor reforça esse aspecto como um ponto de referência em sua autoria. Por que em Benedetta seria diferente? O filme é repleto de cenas polêmicas envolvendo religião e sexualidade. Existe um certo exagero que beira o cômico em momentos significativos que pode afastar o espectador da narrativa, porém, o diretor consegue com todo domínio envolver por completo o público. Na trama Benedetta vive em um convento na Toscana e desde pequena fatos acontecem com a protagonista que a fazem compreender que possui uma conexão forte com o divino. O tempo passa e visões tornam-se constantes a tal ponto que Benedetta começa a apresentar as mesmas chagas de Cristo. Não demora muito para a protagonista ganhar um posto importante no convento gerando...

Feridas cicatrizadas (Pig)

Se olharmos a filmografia de  Nicolas Cage  teremos a ascensão do astro com o Oscar de melhor ator por Despedida em Las Vegas e dentre outros longas surgem pérolas com o psicodélico Candy. No meio do caminho o ator também interpreta protagonistas introspectivos como em Pig. Quando o espectador acredita que Nicolas está no automático apresentando personagens de cunho duvidoso, o ator nos lembra que existe um excelente algo adormecido que precisa somente de um personagem bem escrito. Na trama de Pig, Nicolas interpreta Rob, um homem melancólico que prefere viver com sua porca isolado do mundo. Aos poucos conhecemos o arco do protagonista, porém, Rob é o tipo de personagem que quanto menos soubermos melhor e é esse o maior trunfo da narrativa. Só de olharmos para Rob sabemos que existe um turbilhão de emoções aguardando uma profunda imersão do espectador. Tudo o que precisamos saber é que Rob camufla sentimentos e com o desaparecimento do único elo afetivo, muito do que estava in...

Sobre luto, maternidade e pertencimento (Lamb)

  Lamb pode parecer visualmente estranho no primeiro momento, porém, nas entrelinhas, o longa é sobre como decidimos expurgar nosso sofrimento ao lidar com o luto. Na trama o casal que possui uma criação de ovelhas, se vê em choque com algo inusitado: uma delas acaba de ter Ada. Tudo beira à normalidade, se não fosse um detalhe: a pequena é metade animal, metade humano. Não demora muito para que o casal adote a pequena. O cunhado parece transparecer um pouco de racionalidade no ambiente familiar, pois ele é o único que compreende o quanto tudo é surreal. Ada dorme no berço perto da cama do casal, faz refeições em "família" e passeia com o pai em momentos ternos.  A protagonista Maria, nome muito propício, adota o ser como se fosse uma filha para preencher o vazio existencial após uma terrível perda. Claro que um amor não substitui o outro, mas o sentimento cresce pelo animal de tal forma que se aproxima do maternal. Maria acredita que é mãe novamente e o marido Ingvar a incen...