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Entre o clássico e o moderno (Assassinato no Expresso do Oriente)

O poder do texto de Agatha Christie já insere o espectador na trama de Assassinato no Expresso do Oriente, mas o grande desafio era fazer uma adaptação que não deixasse o público refém pelo fato de conhecer o desfecho. Kenneth Branagh conseguiu alcançar o feito e proporcionou ao espectador um suspense com reviravoltas precisas. Para quem não teve o contato com a obra literária, o filme poderá proporcionar um impacto maior. Hercule Poirot, o melhor detetive do mundo, digno de um bigode que diz muito sobre sua personalidade e que deixaria Henry Cavill com inveja, além de ser o protagonista tem como intérprete Kenneth Branagh. E ter a trama centrada em Branagh faz toda a diferença. O ator que sempre se mostrou competente em diversos trabalhos, aqui domina cada cena e sabe da responsabilidade e peso do protagonista. A trama gira em torno dos passos de Poirot e como aos poucos ele desvenda pistas junto com o espectador. O público acompanha as várias camadas do arco do personagem pro...

Um olhar criativo e cativante (A Estrela de Belém)

Contar uma trama que seja conhecida do grande público é preciso antes de mais nada criatividade. A Estrela de Belém aborda o período de nove meses anterior ao nascimento de Jesus. Como abordar a temática e envolver crianças ? Tendo um protagonista extremamente carismático, Tudo é projetado na tela de forma leve e com muito humor. Assim é a trajetória do inocente e esperto Bo. Um burrinho que tem como objetivo principal deixar de "andar em círculos". Ao escapar do estábulo, ele encontra Maria e percebe que precisa ajudá-la de alguma forma.  A animação é simples e especialmente voltada para os pequeninos. Os personagens são cativantes e a empatia é imediata. Bo conquista o espectador e no meio de sua jornada somos apresentados aos demais animais que o ajudam a descobrir o valor da amizade, lealdade e companheirismo. O roteiro de Simon Moore inverte o prisma de um contexto já explorado e nos transporta para a visão dos animais. Bo e Davi são grandes amigos e passam por ...

O poder dos elementos narrativos (Vazante)

Vazante, o mais recente filme da diretora Daniela Thomas (Linha de Passe e Terra Estrangeira) preza pelo poder das imagens e som. O roteiro escrito por Daniela e Beto Amaral prioriza o poder da fotografia de Inti Briones. A contemplação das imagens dizem muito sobre a trama em si. O som das correntes arrastando, os escravos dividindo espaço com os animais, a inocência de uma jovem que ganha do marido bem mais velho uma boneca de presente e a descoberta previsível do primeiro amor. Tudo é envolto por um roteiro simples para que o espectador fique imerso na atmosfera de uma fazenda decadente do início do século dezenove.  A família de Antônio (Adriano Carvalho) se entrega ao luto pela perda da esposa e criança, ambas morreram no parto. Após um período de olhares voltados para o vazio da dor, o dono da fazenda se encanta pela pequena brincadeira que a sobrinha Beatriz (Luana Nastas) faz com seu par de sapatos. Não demora e o casamento é realizado. O pavor da jovem ao ter que ...

Liberdade e autoria para a DC (Liga da Justiça)

Com Mulher-Maravilha a DC ganhou uma nova perspectiva para recomeçar e ajustar o tom dos filmes futuros na Warner. Até o momento e pelas cenas pós-créditos de Liga da Justiça (fique até o finalzinho dos créditos), o que podemos ter são filmes independentes que podem interligar pontos  proporcionando mais liberdade e autoria para os diretores. Ter os heróis juntos é mais um deleite para os fãs que aguardaram o surgimento da Liga nos cinemas. Gal Gadot ganhou destaque após o filme-solo e Batman de Ben Affleck foi um dos acertos de Batman Vs Superman. Começar o filme com o foco nos dois heróis demonstra a liderança alternada de ambos no comando da Liga. Mas precisava? Seria melhor ganhar tempo na trama com personagens novos. O filme nitidamente alterna os tons e o espectador consegue perceber até a metade do segundo ato a autoria de Zack Snyder. O foco na temática central é explorar ao máximo a dor da morte de Superman. O luto de Martha e Loise, Batman visualmente mais angusti...

A vida constantemente ameaçada (Human Flow: Não Existe Lar se Não há para Onde Ir)

O Poder do documentário Human Flow: Não Existe Lar Se Não Há Para Onde Ir está nas imagens. O diretor Ai Weiwei percorreu durante um ano 23 países para explorar e demonstrar em um tom poético a vida ou para utilizar uma palavra mais apropriada, a sobrevivência. O filme foca em famílias que buscam um pouco de esperança nos constantes deslocamentos fugindo de guerras, fome e perseguições políticas.  As imagens refletem um ritmo lento para que o espectador compreenda o quanto é penoso o deslocamento e o trageto percorrido pelos refugiados. Os planos gerais são essenciais para ter a dimensão do local e as conduções precárias em que as famílias são submetidas. A falta de recursos básicos contrasta com belas imagens do oceano que dia após dia transporta pessoas em busca de uma vida melhor. A dualidade presente nas imagens é reforçada pela beleza presente nos trechos de poetas que proporcionam ao documentário uma leveza passageira.  Ai Weiwei por diversos momentos se tor...

O predador e o animal espectador (Terra Selvagem)

Um protagonista que guarda para si uma dor devastadora. O seu trabalho consiste em caçar predadores, e assim, Terra Selvagem envolve o espectador em torno de duas subtramas: a dor da perda e o jogo da natureza pela sobrevivência. Durante todo o filme, somos inseridos no contexto detalhado dessas temáticas, para que aos poucos o roteiro explore de forma sensível e em tom de denúncia o que realmente a trama quer focar: a luta dos nativos/indígenas por direitos e dignidade.  O roteiro de Taylor Sheridan foca principalmente no protagonista vivido por Jeremy Renner. A profissão de Cory Lambert move a trama. O caçador sempre certeiro auxilia a pequena população ao impedir que predadores matem ovelhas e outros animais. Após a morte de uma jovem, Sheridan explora esse contexto de forma sensível e crua trazendo o espectador para dentro da trama de forma emocional. A jovem não tinha como se desvencilhar da situação e como uma ovelha acoada sabia ao certo seu triste desfecho. Co...

E isso faz toda diferença. Ponto final. (Mullholland Drive)

Ter a oportunidade de rever um dos principais filmes de Lynch nos cinemas é uma questão que envolve principalmente a experiência estética caótica individual de cada espectador e na tela grande os elementos narrativos ganham uma intensidade de proporções impactantes. Mulholland Drive e a tela grande. Uma dupla, no mínimo, marcante. Tudo na trama remete ao sonho/pesadelo vivido pelas protagonistas Rita e Betty. Após Rita sofrer um acidente de carro (estrada e carros são marcantes na filmografia do diretor), a personagem permanece durante todo o filme em um estado catatônico. Já Betty é uma aspirante à atriz que tenta se firmar em Los Angeles. A química entre Naomi Watts e Laura Harring intensifica ainda mais a proposta de que Mullholland Drive é um estético e belo sonho. A trilha sonora de Angelo Badalamenti transmite a sensação ao espectador de leveza e mistério reforçando a atmosfera sonho/pesadelo presente na trama. A fotografia escura de Peter Deming explora a intensidade d...