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O poder dos elementos narrativos (Vazante)

Vazante, o mais recente filme da diretora Daniela Thomas (Linha de Passe e Terra Estrangeira) preza pelo poder das imagens e som. O roteiro escrito por Daniela e Beto Amaral prioriza o poder da fotografia de Inti Briones. A contemplação das imagens dizem muito sobre a trama em si. O som das correntes arrastando, os escravos dividindo espaço com os animais, a inocência de uma jovem que ganha do marido bem mais velho uma boneca de presente e a descoberta previsível do primeiro amor. Tudo é envolto por um roteiro simples para que o espectador fique imerso na atmosfera de uma fazenda decadente do início do século dezenove.  A família de Antônio (Adriano Carvalho) se entrega ao luto pela perda da esposa e criança, ambas morreram no parto. Após um período de olhares voltados para o vazio da dor, o dono da fazenda se encanta pela pequena brincadeira que a sobrinha Beatriz (Luana Nastas) faz com seu par de sapatos. Não demora e o casamento é realizado. O pavor da jovem ao ter que ...

Liberdade e autoria para a DC (Liga da Justiça)

Com Mulher-Maravilha a DC ganhou uma nova perspectiva para recomeçar e ajustar o tom dos filmes futuros na Warner. Até o momento e pelas cenas pós-créditos de Liga da Justiça (fique até o finalzinho dos créditos), o que podemos ter são filmes independentes que podem interligar pontos  proporcionando mais liberdade e autoria para os diretores. Ter os heróis juntos é mais um deleite para os fãs que aguardaram o surgimento da Liga nos cinemas. Gal Gadot ganhou destaque após o filme-solo e Batman de Ben Affleck foi um dos acertos de Batman Vs Superman. Começar o filme com o foco nos dois heróis demonstra a liderança alternada de ambos no comando da Liga. Mas precisava? Seria melhor ganhar tempo na trama com personagens novos. O filme nitidamente alterna os tons e o espectador consegue perceber até a metade do segundo ato a autoria de Zack Snyder. O foco na temática central é explorar ao máximo a dor da morte de Superman. O luto de Martha e Loise, Batman visualmente mais angusti...

A vida constantemente ameaçada (Human Flow: Não Existe Lar se Não há para Onde Ir)

O Poder do documentário Human Flow: Não Existe Lar Se Não Há Para Onde Ir está nas imagens. O diretor Ai Weiwei percorreu durante um ano 23 países para explorar e demonstrar em um tom poético a vida ou para utilizar uma palavra mais apropriada, a sobrevivência. O filme foca em famílias que buscam um pouco de esperança nos constantes deslocamentos fugindo de guerras, fome e perseguições políticas.  As imagens refletem um ritmo lento para que o espectador compreenda o quanto é penoso o deslocamento e o trageto percorrido pelos refugiados. Os planos gerais são essenciais para ter a dimensão do local e as conduções precárias em que as famílias são submetidas. A falta de recursos básicos contrasta com belas imagens do oceano que dia após dia transporta pessoas em busca de uma vida melhor. A dualidade presente nas imagens é reforçada pela beleza presente nos trechos de poetas que proporcionam ao documentário uma leveza passageira.  Ai Weiwei por diversos momentos se tor...

O predador e o animal espectador (Terra Selvagem)

Um protagonista que guarda para si uma dor devastadora. O seu trabalho consiste em caçar predadores, e assim, Terra Selvagem envolve o espectador em torno de duas subtramas: a dor da perda e o jogo da natureza pela sobrevivência. Durante todo o filme, somos inseridos no contexto detalhado dessas temáticas, para que aos poucos o roteiro explore de forma sensível e em tom de denúncia o que realmente a trama quer focar: a luta dos nativos/indígenas por direitos e dignidade.  O roteiro de Taylor Sheridan foca principalmente no protagonista vivido por Jeremy Renner. A profissão de Cory Lambert move a trama. O caçador sempre certeiro auxilia a pequena população ao impedir que predadores matem ovelhas e outros animais. Após a morte de uma jovem, Sheridan explora esse contexto de forma sensível e crua trazendo o espectador para dentro da trama de forma emocional. A jovem não tinha como se desvencilhar da situação e como uma ovelha acoada sabia ao certo seu triste desfecho. Co...

E isso faz toda diferença. Ponto final. (Mullholland Drive)

Ter a oportunidade de rever um dos principais filmes de Lynch nos cinemas é uma questão que envolve principalmente a experiência estética caótica individual de cada espectador e na tela grande os elementos narrativos ganham uma intensidade de proporções impactantes. Mulholland Drive e a tela grande. Uma dupla, no mínimo, marcante. Tudo na trama remete ao sonho/pesadelo vivido pelas protagonistas Rita e Betty. Após Rita sofrer um acidente de carro (estrada e carros são marcantes na filmografia do diretor), a personagem permanece durante todo o filme em um estado catatônico. Já Betty é uma aspirante à atriz que tenta se firmar em Los Angeles. A química entre Naomi Watts e Laura Harring intensifica ainda mais a proposta de que Mullholland Drive é um estético e belo sonho. A trilha sonora de Angelo Badalamenti transmite a sensação ao espectador de leveza e mistério reforçando a atmosfera sonho/pesadelo presente na trama. A fotografia escura de Peter Deming explora a intensidade d...

Qual a melhor parte para desistir de a noiva? (A Noiva)

A família do jovem Vanya sofre com uma maldição que não fica muito clara dentro da trama. Aliás, nada é muito claro em A Noiva. O filme começa com a explicação da maldição que atormenta todos ao redor de Vanya. Ele precisa retornar para sua casa e alerta a esposa que seria interessante se ela não o acompanhasse. Claro que eventos estranhos começam a perturbar a jovem Nastya a cada momento que ela resolve entrar em algum cômodo da casa (que ela obviamente não deveria entrar). Lembrem-se, o filme é previsível. Ela entra em todos os lugares até o espectador ficar tonto de tanto ver a protagonista se arrastando durante todo o filme.  Os primeiros minutos de A Noiva são interessantes e envolvem o espectador na trama. Sabemos que existe uma maldição e que ela está diretamente ligada a um negativo de uma fotografia tirada por Barin. Na maldição, o negativo da fotografia capta a alma da noiva de Barin. Com o negativo intacto, a maldição permanece sempre que uma jovem se casa com um...

Falta de equilíbrio e cuidado com os personagens (Thor: Ragnarok)

Com Guardiões da Galáxia (2014), os estúdios Marvel mudaram o patamar dos filmes de super-heróis e investiram em um tom mais cômico e audacioso. Thor:Ragnarok é a imersão total na comicidade e ousadia ao apostar em um diretor novato para blockbusters. Logo nos primeiros minutos da trama do Deus do Trovão, o espectador sabe que irá ficar com um sorriso no rosto durante grande parte da projeção. O timing cômico do diretor Taika Waititi move grande parte do filme. Um novo rumo para a franquia perdida de Thor nos cinemas. Nesta "nova versão" do herói, o protagonista precisa salvar Asgard de Ragnarok e impedir o domínio da vilã Hela. Simples assim.  A proposta inicial é deixar Thor: Ragnarok com um tom leve para explorar e atingir vários públicos de diferentes faixas etárias. A questão principal é saber dosar a intensidade do timing cômico em cena. Mark Ruffalo e Chris Hemsworth possuem uma química interessante construída no primeiro Vingadores. Investir mais na dupla...