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O laço animalesco repleto de afetos (Ataque dos Cães)


 A quebra do mito do Cowboy foi sentida com delicadeza em O Segredo de BrokeBack Mountain, pelo olhar de Ang Lee. O ano do lançamento foi 2005 e dentro da Academia obteve resistência e boicote dos votantes veteranos. Anos após a premiação chega aos cinemas o filme de Jane Campion, Ataque dos Cães, que precisa enfrentar outro tipo de resistência: o carimbo Netflix. Não é segredo para ninguém que a rejeição com filmes de streaming é pública e notória na premiação. Coube a Jane a adaptação do livro de Thomas Savage que explora a desconstrução da figura do Cowboy explorando o viés da masculinidade tóxica. O protagonista Phil Burbank camufla sentimentos e apresenta uma personalidade arredia beirando a maldade. O sentimento de rancor fica em evidência quando o irmão George casa-se com a viúva Rose. Ela vê sua delicadeza ruir justamente pelo rancor de Phil. Porém, uma mudança singela é sentida pelo protagonista com a presença do jovem Peter, filho de Rose. O único que tenta domar o animal que existe em Phil. 

Jane Campion consegue envolver o espectador em um ritmo lento e apresenta a desconstrução dos personagens principais. As camadas mais intensas podem ser sentidas nos personagens de Phil e Rose. Existe um embate entre eles que os transforma por completo. A ameaça feminina amedrontra Phil que reforça ainda mais a rigidez presente no protagonista desestabilizando por completo Rose, que por sua vez se entrega ao alcoolismo. Já as camadas do protagonista vivido por Benedict Cumberbatch podem ser sentidas principalmente pela presença de Peter. Existe uma sensibilidade enrustida no protagonista que apresenta momentos de delicadeza quando Phil recorda o passado e se vê na pele do jovem. O passado vem à tona a medida em que a relação entre os personagens fica próxima. Jane sabiamente e com extrema cautela apresenta as nuances do quarteto nos detalhes e como as relações os modificam de forma tão drástica. Muito do que não é dito pelos personagens fica no imaginário do espectador ou é explorado por Jane pelos detalhes nas imagens. 


A direção apresenta momentos decisivos de virada dos personagens no poder dos detalhes e na sensibilidade com que movimenta a câmera. Phil no primeiro ato é envolto por uma fotografia com paletas frias, como se o protagonista carregasse uma sombra constante, que ganha vida aos poucos na presença de Peter. Nos primeiros momentos Phil possui uma atmosfera carregada de agressividade que para muitos é sinônimo de masculinidade. Uma das principais cenas é quando Phil confecciona um laço para Peter. Uma cena singela repleta de conotação sexual e que ganha sensibilidade no olhar de Jane. O mesmo acontece no cavalgar e na troca de olhares da dupla. Jane faz com que os personagens fiquem pequenos no plano geral ao destacar a natureza e como ela interfere no quarteto. Enquanto o ambiente sufoca Rose é nesse mesmo local que George se permite amar. Vale ressaltar também a cena de desconstrução de Phil quando o protagonista toma banho e resgata memórias passadas. A delicadeza da cena é puro reflexo da autoria de Jane. 

Apesar de toda resistência da Academia com relação ao streaming seria uma injustiça enorme se o quarteto não fosse indicado pelas respectivas performances. Aqui temos o melhor trabalho da carreira de Benedict. A transformação é sentida no físico e psicológico do ator. A forma de andar rude e o olhar fulminante que tortura aos poucos a personagem de Kirsten Dunst ganham o espectador. Existe um duelo com o público que sente atração pelo trabalho do ator, ao mesmo tempo que  recrimina todas as atitudes machistas que Phil têm com Rose. Já Jesse Plemoss nos apresenta um George aberto ao afeto mais que precisa camuflá-lo por justamente ser homem. Em uma das falas do personagem, George se afasta de Rose e chora. Em seguida ele reflete: " Eu queria dizer como é bom não estar sozinho". Se permitir sentir já era demais para um homem que também sofria com a influência de Phil. Talvez o personagem mais transparente e que se aceita por completo é o jovem Peter interpretado por Kodi Smit- McPhee. Ele é o único que sofre com o preconceito e que permanece vivendo a liberdade que deseja nas atitudes provocando uma instabilidade e insegurança necessária para a transformação do protagonista. Existe sim uma nuance drástica no coadjuvante, mesmo que o espectador observe essa transformação, a essência do personagem permanece. 

Ataque dos Cães é um filme repleto de simbolismos e que apresenta a transformção dos quarteto nos detalhes. O ambiente que Phil domina por completo é entre os animais, talvez por ser reflexo direto de um, na maneira de se portar e agir. Já o extremo oposto está na personalidade de Peter que demonstra delicadeza ao fazer flores de papel e mesmo com toda recriminação ainda encontra forças para ajudar a mãe. E Rose que se entrega por não saber lidar com o animal presente dentro de Phil. No desfecho, o laço tão significativo que prende o protagonista entre o animal e o sentimental é o mesmo que une o quarteto em emoções reprimidas. O objeto é esquecido para que a vida ganhe tons de leveza e normalidade na ausência das sombras que habitavam o lugar. 







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