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Entre o micro e o macro (Liga da Justiça)


O combo surgiu: fã, hashtag, estúdio e Jack Snyder. Junte tudo e o combo pipoca está pronto. Tudo bem, o espectador não comprou o combo no entrada do cinema, agora temos uma nova vertente que deve dominar por algum tempo os lançamentos dos grandes estúdios. De olho no fã que pediu a versão do diretor de Liga da Justiça, a HBO Max lançou no serviço de streaming a tão esperada versão.  O fenômeno foi tamanho que Jack teve total liberdade para reconduzir o projeto. Liberdade de quatro horas e cansaço em diversos momentos. 

A trama é dividida em capítulos e aborda o "recrutamento" de Batman ao escolher metahumanos após a morte do Superman. Os primeiros capítulos são voltados para o arco de cada herói e como as caixas maternas unem cada um para, posteriormente, formar a Liga da Justiça. Diana é a primeira que logo percebe que uma ameaça maior está por vir. Ela fica com a função de convencer Cyborg para entrar no grupo. Aquaman é o mais resistente, porém, quando Atlantes está ameaçada, o herói decide auxiliar surgindo em uma cena Deus ex machina para evitar que os heróis sejam tomados pela água. Flash aceita prontamente porque "não tem amigo". Então, o viés cômico do personagem continua sendo um problema no roteiro. O vilão é o Lobo da Estepe que precisa juntar todas as caixas maternas para servir Darkside e dominar o mundo. Com a equipe formada, Cyborg possui um arco extremamente importante que move boa parte dos capítulos finais. O herói consegue ressuscitar Superman com a ajuda de Flash. Aqui temos uma faísca dos filmes solo do herói. O flashpoint é explorado no roteiro e Superman retorna confuso. A confusão faz a equipe trabalhar em conjunto para tentar freiar o herói. Em mais um Deus ex machina, Lois surge para que Clark possa lembrar de quem ele realmente foi anteriormente. Com a equipe toda formada é ótimo ver os heróis em ação e a importância de cada um na batalha final.
 

Para detalhar o restante da trama e o que realmente diferencia as versões do que o espectador teve acesso é preciso mencionar a assinatura do diretor. Todo o contexto envolvendo as caixas maternas e como elas ligam cada herói evidenciam o exagero de Snyder. O arco voltado para as Amazonas lembra muito outra adaptação dos quadrinhos do diretor, 300, que fez Snyder ganhar notoriedade em Hollywood. As mulheres guerreiras lutam contra o sexismo do diretor que abusa da câmera lenta destacando os corpos das atrizes. Tudo bem que o olhar do Jack Snyder mudou consideravelmente com relação à Mulher-Maravilha, mas a câmera lenta desnecessária nas lutas das Amazonas... Por falar no recurso explorado podemos ressaltar o excesso de vários deles durante as quatro horas da narrativa. Utilizar a câmera lenta para destacar um poder específico do herói ou uma cena solo de outro é interessante e envolve o espectador, porém utilizar praticamente a cada entrada de um herói na batalha torna o recurso cansativo e provoca ausência de propósito, somente a finalidade estética mesmo para justificar tamanho exagero. O mesmo acontece com a trilha sonora pop totalmente deslocada, com o pano de fundo justificável por casar com o arco dos personagens. O elemento narrativo quebra o ritmo de forma constante e utilizar a trilha para cada momento solo dos heróis, um verdadeiro teste de paciência. Agora, o combo completo é a junção da trilha, câmera lenta, paleta saturada e autoria macro de Zack. É tamanha informação que no primeiro momento causa empolgação no espectador ao ver os heróis juntos, mas o excesso de informação na mise-en-scène confunde e desvia o olhar do espectador em vários momentos. Devo confessar que a câmera lenta do Superman acompanhando o Flash foi de aquecer o coração, o filme possui momentos ótimos de interação dos heróis, o que prejudica realmente é a repetição constante dos elementos narrativos.

Não há como negar que Liga da Justiça teve mais uma chance graças ao pedido dos fãs para que Zack Snyder tivesse controle total do projeto. A pressão da internet falou mais alto e o lucro com os assinantes de HBO Max alavancou ainda mais o poder do serviço de streaming. Mas será que o espectador teve realmente um filme diferenciado do que foi lançado 2017? Tirando todos os problemas, o que o espectador realmente teve foi a transição do micro para o macro. Tudo na narrativa ganhou uma dimensão maior. Câmera lenta aos montes, trilha sonora pop desnecessária, mise en-scène confusa e a megalomania do diretor no auge. Mais do mesmo com um desenvolvimento maior no arco de Cyborg. Para quem aprecia o macro do diretor, o longa é um prato cheio para os fãs,  para quem não gosta tanto, o micro já estava de bom tamanho. 

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