Pular para o conteúdo principal

Uma Nova Geração move Hollywood (A Luz no Fim do Mundo)



Tramas distópicas revelam muito sobre o ser humano em situações extremas. A atmosfera é intimista e ressalta conflitos internos dos personagens. Podemos encontrar tais aspectos em A Luz no Fim do Mundo. Na trama,  Casey Affleck perde a mulher e precisa cuidar da filha sozinho em um mundo sem muitas possibilidades para ela. O espectador acompanha a luta pela sobrevivência de pai e filha. A fuga é constante, pois quando a pequena Rag era bebê sua mãe foi foi vítima de uma pandemia que atingia somente mulheres. Após um longo período, Rag se passa por menino para evitar transtornos. A menina cresce e deseja descobrir não só o mundo, mas também a necessidade de ter um lar. 

Casey Affleck é responsável por praticamente todas as vertentes do longa. O roteiro assinado pelo ator explora ao máximo a relação entre pai e filha. O pouco contato que Rag tem do mundo é assimilado pelos livros que a jovem consegue em abrigos isolados e pelas histórias um tanto quanto infantis que o pai conta. Logo o espectador sente não somente a forte ligação existente entre os dois, como também o tom cômico explorado no roteiro em momentos pontuais. Existe um equilíbrio interessante no roteiro em ressaltar conflitos típicos da pré-adolescência de Rag. O momento desconcertante em que o pai precisa ensinar a filha de onde nascem os bebês, a primeira menstruação, a rebeldia em correr riscos e a vaidade ao escolher roupas chamativas. Ao mesmo tempo que as subtramas são exploradas ainda existe a essência da inocência de uma garota que não conhece a crueldade do ser humano. Introduzir demais personagens na trama reforça a necessidade de interação, mesmo que em alguns momentos específicos a necessidade da sobrevivência fale mais alto.

A direção de Casey é estática prejudicando o envolvimento do espectador. Em determinados momentos o diretor explora uma câmera intimista quando ressalta os diálogos entre pai e filha. Porém, quando o filme necessita de um ritmo mais intenso, a câmera permanece estável. Vale destacar a fotografia que intensifica a frieza do mundo distópico. Apesar do recurso previsível dos flashbacks para retratar a relação com a mulher, a fotografia alterna a paleta de cores nos momentos em que ela se faz presente. A personagem de Elizabeth Moss é utilizada de forma extremamente equivocada pela montagem. Em determinado momento existe um corte abrupto na fala da personagem, em seguida, a mesma cena aparece estendida. Se as cenas da atriz fossem retiradas do filme não prejudicaria o andamento da trama. Outro elemento narrativo que surge em momentos pontuais é a trilha sonora. Quando a relação entre pai e filha estremece a trilha surge como principal complemento na cena.


O olhar como diretor de Casey é voltado para explorar ao máximo a interpretação  dos  atores. Mesmo que a câmera do diretor seja estática proporcionando uma lentidão desnecessária ao filme, em determinadas cenas  a contemplação inserida na ausência de movimentação auxilia na envolvimento do espectador. São nesses momentos que Casey consegue conduzir de forma natural a presença de estreiante Anna Pniowsky. O filme é todo da atriz que precisa transmitir uma alternância de camadas para Rag. A atriz transmite sensibilidade, raiva e intensidade sem perder a inocência, mesmo que precise tomar atitudes drásticas para sobreviver. Já Casey Affleck estende várias cenas priorizando o protagonismo de seu personagem. As cenas em que ele conta histórias para a filha são monólogos que poderíam ser facilmente reduzidos ou dedicados para o maior desenvolvimento do arco da mãe na trama. A Luz no Fim do Mundo possui uma premissa já explorada em diversos filmes distópicos, porém ganha o espectador pela presença intensa da jovem Anna que toma o filme para si e mostra que de tempos em tempos uma nova geração de atores surge para mover Hollywood.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

E a emoção? (O Farol)

O diretor Robert Eggers em O Farol segue uma lista e entrega ao espectador um filme tecnicamente impecável. Cada cena é um colírio para os olhos e realizar o projeto com a fotografia em preto e branco potencializa ainda mais o preciosismo do diretor. No longa, Thomas Wake e Ephraim Winslow são responsáveis por cuidar de um farol isolado. Thomas contrata Ephraim para ajudá-lo e aos poucos ambos começam a travar uma luta de egos e masculinidade. Tudo é explorado aos poucos para que a relação entre os protagonistas tenha força e consiga mover a trama. A premissa é simples, porém, repleta de significados mitológicos, filosóficos e principalmente de superação de traumas. Thomas possui uma ruptura familiar e Ephraim procura constantemente a afeição paterna.  A impressão que o filme passa ao longo dos atos é que Robert elaborou uma lista com tópicos a serem seguidos. Cada tópico realizado com êxito significava um "check" na lista do diretor. Realizar o filme com uma razão de...

Guerras internas movem Spielberg (The Post - A Guerra Secreta)

Streep, Hanks, Spielberg e Willians. Nomes de peso premiados que elevam The Post -A Guerra Secreta e fazem o espectador ficar atento. Ganhador de vários prêmios e indicado nas principais categorias do Oscar, a trama foca em uma guerra central, a Liberdade de Impresa x a Lei da Espionagem. Mas o que The Post aborda também são as guerras internas travadas pelos protagonistas. Kay Graham, dona do jornal The Whashington Post, trava uma verdadeira guerra contra o preconceito. Muitos não acreditavam que a protagonista conseguiria assumir um cargo tão significativo e importante. Para Ben Bradlee, editor-chefe do jornal, a guerra é diária voltada para o cotidiano da redação. The Post é o equilíbrio entre essas guerras com a autoria de Spielberg. A guerra do Vietnã toma a tela nos primeiros minutos da trama, assim como a autoria de Spielberg . Na atmosfera do conflito, um objeto cênico ganha o destaque pelo zoom in : uma máquina de escrever. O diretor demonstra a força do objeto e como...

A imersão do espectador (Z - A Cidade Perdida)

James Grey possui detalhes interessantes em torno de sua filmografia: a leveza em conduzir a narrativa, a ambientação da trama e o cuidado ao explorar os personagens. O diretor conduz o filme sem pressa e prioriza a imersão do espectador na história. Foi assim em Amantes, quando o personagem de Joaquim Phoenix permanecia em conflito ao estar apaixonado por duas mulheres. O que dizer do dilema de Marion Cotillard em Era uma Vez em Nova York? A riqueza de detalhes da direção de arte e a busca pelo sonho da personagem são aspectos narrativos que sobressaem no filme. Podemos ressaltar as mesmas características em Z – A Cidade Perdida. O coronel Percival Fawcett persiste em um objetivo: descobrir e provar a existência de civilização na Amazônia. Ao longo da trama podemos intensificar o cuidado com a ambientação, a riqueza ao explorar os conflitos do protagonista e a leveza ao conduzir a narrativa. Todos os elementos de filmes anteriores estão presentes na novo longa de uma maneira in...