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A vida real exige outro tipo de montagem (O Pintassilgo)


A proposta de O Pintassilgo é envolver o espectador pela não linearidade da trama. O elemento narrativo que auxilia na complexidade dos personagens e instiga o público neste aspecto é a montagem. Na trama Theo Decker perde a mãe em um atentado terrorista em Nova York. Após a perda, o protagonista estabelece laços afetivos com a família Barbour. O tempo passa e a trama acompanha Theo que carregou durante anos a culpa por ter levado a mãe para uma galeria de arte na hora da explosão. Durante duas horas e meia o espectador vivencia os traumas do protagonista na pré- adolescencia até a fase adulta. 

Peter Straughan alterna trabalhos com o viés voltado para a não linearidade na trama. O roteirista propõe um longo caminho para o espectador e apresenta aos poucos os coadjuvantes que são fundamentais na vida do jovem. Assim como na vida real, Theo é cercado de pessoas que o marcaram e mudaram os rumos de sua trajetória. O que liga os arcos dos personagens é a arte, mais precisamente a pintura. Após a explosão, o único quadro que permaneceu intacto foi O Pintassilgo. A lembrança da mãe está diretamente ligada ao quadro que Theo conseguiu guardar durante vários anos. Além de recordações dolorosas, o jovem também levou consigo um anel. O objeto estabelece uma relação afetiva direta com James Hobart, um homem solitário que trabalha restaurando móveis. O tempo passa e Theo é forçado a morar com o Larry. E assim, os personagens surgem na vida do protagonista com a mesma facilidade que saem da trama sem o mínimo cuidado. O espectador não consegue se conectar emocionalmente com a trajetória do protagonista pelo simples fato de Peter querer abraçar várias reviravoltas na trama. A cada personagem que entra na vida de Theo algo significativo acontece, mas logo perde força para dar sequência a outro momento marcante do protagonista. O único personagem que mantém um arco desenvolvido ao longo dos atos é James. Nos momentos mais dramáticos, Theo o procura e sempre é acolhido. Os demais personagens perdem força justamente por serem resgatados em momentos convenientes do roteiro. Não existe uma ligação e conexão sólida entre eles. Os momentos mais intensos são voltados para a adolescência. É nítida a falta de envolvimento dos personagens e, consequentemente, do espectador na fase adulta. O que prejudica consideravelmente o desfecho proposto no roteiro. 

Assim como o roteiro não consegue estabelecer uma ligação entre os personagens, a montagem que exerce o papel fundamental para essa ligação também é em diversos momentos confusa. No decorrer da trama, o protagonista resgata os momentos traumáticos que sofreu na explosão. Pelo menos em três momentos o elemento narrativo é utilizado para enfatizar a mesma cena com o intuito de criar expectativa e prender o espectador na trama. Porém, o efeito gerado no público é justamente o oposto. A repetição das cenas torna o filme longo e arrastado. Em vários momentos a montagem ao invés de gerar expectativa afasta o espectador por completo. A todo o momento que o público tenta estabelecer uma ligação com o arco do protagonista a montagem surge e propõe outra reviravolta presente no roteiro. O elemento narrativo estabelece ligações quebradas e abruptas na vida de Theo. O mesmo acontece com a fotografia. A paleta de cores quentes predomina em vários momentos na vida de Theo, nos encontros e desencontros. O problema é que a montagem também prejudica o trabalho da fotografia. Nos momentos mais intensos e dramáticos na fase adulta de Theo, a paleta de cores frias logo é substituída por momentos mais alegres da fase voltada para a adolescência.  


Por a trama ser não linear e a montagem alternar fases da vida do protagonista, o elenco precisava transparecer a ligação necessária entre os personagens. Nomes de peso auxiliam no trabalho do jovem ator Ansel Elgort. O destaque fica para a participação de Nicole Kidman que reforça a introspecção de Sra. Barbour e a submissão perante a figura do marido, apesar de sempre utilizar vestimentas claras transmitindo certa leveza e afeto na aura da personagem. Já Jeffrey Wright intensifica o minimalismo de James no poder do olhar. Ao mesmo tempo em que a montagem reforça e não deixa o espectador esquecer a presença dos coadjuvantes, o elemento narrativo prejudica consideravelmente o trabalho todos os envolvidos. Apesar do elenco com nomes fortes, o destaque fica por conta de Oakes Fegley. Como a montagem alterna os momentos do protagonista jovem e adulto, o espectador consegue sentir o ator movendo a trama por completo. Fica a sensação que Peter Straughan quis ressaltar no roteiro a vida real pela interferência das pessoas no caminho do protagonista. Acontece que a vida real exige outro tipo de montagem. Uma montagem voltada para a contemplação e com o tempo necessário para sentir emoções. 

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