Pular para o conteúdo principal

John Hughes salvando o Aranha (Homem - Aranha: De Volta ao Lar)




Uma nova aventura. Um novo recomeço para o herói. Após entrar no universo compartilhado da Marvel em Guerra Civil, o Homem- Aranha retorna em um filme solo. GuerraCivil soube explorar resumidamente e de forma eficaz a origem do herói. Com um filme próprio, “as responsabilidades e poderes aumentaram” e o que temos é uma narrativa centrada no público infantil e adolescente.

A trama começa com Peter fazendo um vídeo para encontrar Happy Horgan e Tony Stark para a cena que o espectador conferiu em Guerra Civil. A cena do aeroporto é registrada com olhar diferenciado. Um olhar típico adolescente que possui a necessidade de filmar tudo. Com Peter Parker não seria diferente. Ele fica deslumbrado com toda a tecnologia do Homem de Ferro e precisa filmar sua participação no combate entre os heróis. Esse aspecto é interessante pois insere a tecnologia na atmosfera que permeia toda a narrativa. 

 O filme ganha uma atmosfera mais próxima do público jovem porque a trama é centrada basicamente em dois núcleos: o ambiente escolar e as aventuras do homem-aranha tentando se adaptar aos novos poderes e uniforme, que durante todo o filme mais atrapalha do que auxilia o herói. A trama é melhor desenvolvida quando o jovem está vivendo o cotidiano típico de um adolescente. Estar apaixonado pela garota mais popular da escola, pertencer ao grupo de nerds, não ter muitos amigos e sofrer bullying quase todo o tempo. Quando o roteiro explora esse viés, tendo como fonte direta os filmes de John Hughes, a narrativa é envolvente e insere também o público adulto com toques de nostalgia dos filmes oitentistas. A narrativa cresce consideravelmente quando o protagonista vive o dilema de ser adolescente e cometer erros típicos da idade, ao mesmo tempo que tenta lidar com “as responsabilidades” de ser um super-herói.


A mesma qualidade e desenvolvimento da vida pacata de adolescente escolar explorada de forma redonda pelo roteiro não é retratada com competência quando o herói veste o uniforme. Existe uma conexão entre o jeito atrapalhado de ser do jovem que está presente no herói, mas no meio do segundo ato fica cansativo para um público mais velho acompanhar o adolescente enfrentando perigos mais intensos do que roubos de carros ou bancos. Para um nicho específico funciona perfeitamente, mas para espectadores adultos fica monótono. O roteiro consegue extrair momentos interessantes para o vilão com motivações que movem a trama e se encaixam no universo proposto pela Marvel, mas fica a sensação de que Michael Keaton poderia ter feito muito mais pelo ator competente que sempre mostrou ser. O fato de não ter cenas megalomaníacas e um raio azul cortando o céu já é um acerto para o aranha. Impossível não se perguntar em determinado momento: Onde está o vilão? Ele fica uma boa parte sem aparecer, o que é uma pena, mas retorna com um plot twist marcante proporcionando uma dramaticidade maior para o arco de Peter Parker.

A tecnologia que está diretamente voltada para um dos melhores personagens do filme funciona organicamente e estabelece a necessidade do herói em ter um auxilio humanista. O filme cresce com a relação dos amigos Peter e Ned. Ambos vivem os dilemas e inseguranças de todo adolescente. Ned é o alívio cômico presente durante todo o filme. A química entre os atores flui com naturalidade e reforça o lado humano do herói.  
  
Homem Aranha: De Volta ao Lar é um filme leve para um nicho específico: crianças e adolescentes. Esse aspecto não é algo negativo, muito pelo contrário, se faz necessário ter um equilíbrio dentro do gênero. O filme cresce muito quando bebe na fonte de John Hughes. As referências ao ambiente escolar e os dilemas adolescentes explorados nos filmes do diretor envolvem o público por seres universais. O Homem-Aranha pode salvar a cidade combatendo o vilão Abutre, mas quem salva o Aranha é John Hughes. 



Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

E o atendente da locadora?

Tenho notado algo diferenciado na forma como consumimos algum tipo de arte. Somos reflexo do nosso tempo? Acredito que sim. As mudanças não surgem justamente da inquietação em questionar algo que nos provoca? A resposta? Tenho minhas dúvidas. Nunca imaginei que poderia assistir e consumir algum produto em uma velocidade que não fosse a concebida pelo autor. A famosa relíquia dos tempos primórdios, a fita VHS, também nos aproximava de um futuro distópico, pelo menos eu tinha a sensação de uma certa distopia. Você alugava um filme e depois de assistir por completo, a opção de retornar para a cena que mais gostava era viável. E a frustração de ter voltado demais? E de não achar o ponto exato? E o receio de estragar a fita e ter que pagar outra para o dono da locadora? Achar a cena certinha era uma conquista e tanto. E o tempo...bom, o tempo passou e chegamos ao DVD. Melhoras significativas: som, imagem e, pasmem, eu poderia escolher a cena que mais gostava, ou adiantar as que não apreciav...

Entretenimento focado em referências (Um Espião e Meio)

Logo no início de Um Espião e Meio as referências são evidentes ao retratar a adolescência dos protagonistas. Muito próxima da linguagem narrativa utilizada em Anjos da Lei com Jonah Hill e Channing Tatum, o universo escolar é abordado pelo contraste de características dos personagens. Dwayne Johnson vive o agente da CIA, Bob Stone que no passado sofria bullying por estar cima do peso, as cenas do protagonista na adolescência são próximas as da filha de Bela na Saga Crepúsculo. A montagem com o rosto do ator em um corpo diferente é , no mínimo, questionável. Kevin Hart vive Calvin Joyner, sempre conhecido como Foguete Dourado, o  mais popular na juventude . Após 20 anos, ambos se reencontram e fica evidente que um ajudará o outro a desvendar uma trama repleta de clichês.   O filme aposta na química da dupla, mesmo que esta não funcione a maior parte do tempo. Individualmente os atores possuem carisma suficiente para segurar os protagonistas, mas quando estão juntos a...

Um sopro inovador em Hollywood (Buscando...)

Buscando... é uma trama que presa pelos detalhes, eles estão todos na tela e aos poucos tudo se encaixa como peças de um quebra-cabeça. O envolvimento do espectador é imediato. Com um ritmo constante o público conhece e se conecta com os dilemas da jovem Margot. Com a morte da mãe, a adolescente sempre mantém contato com o pai por mensagens no celular e ligações. David começa a ficar preocupado quando a filha não retorna para casa e logo o pai pede ajuda da polícia para tentar encontrar a filha.  O roteiro do diretor Aneesh Chaganty e de Sev Ohanian ressalta detalhes e  provoca o envolvimento do espectador. Todos são suspeitos do desaparecimento de Margot. Os roteiristas exploram um equilíbrio interessante entre comédia e tensão. David faz uma investigação paralela entrando no computador da filha. A conexão com a vida real do espectador é imediata. David busca amigos e vídeos em diversas redes sociais da filha. A medida que David consegue ligar os pontos e conhecer um...