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Entre o micro e o macro (Liga da Justiça)

O combo surgiu: fã, hashtag, estúdio e Jack Snyder. Junte tudo e o combo pipoca está pronto. Tudo bem, o espectador não comprou o combo no entrada do cinema, agora temos uma nova vertente que deve dominar por algum tempo os lançamentos dos grandes estúdios. De olho no fã que pediu a versão do diretor de Liga da Justiça, a HBO Max lançou no serviço de streaming a tão esperada versão.  O fenômeno foi tamanho que Jack teve total liberdade para reconduzir o projeto. Liberdade de quatro horas e cansaço em diversos momentos.  A trama é dividida em capítulos e aborda o "recrutamento" de Batman ao escolher metahumanos após a morte do Superman. Os primeiros capítulos são voltados para o arco de cada herói e como as caixas maternas unem cada um para, posteriormente, formar a Liga da Justiça. Diana é a primeira que logo percebe que uma ameaça maior está por vir. Ela fica com a função de convencer Cyborg para entrar no grupo. Aquaman é o mais resistente, porém, quando Atlantes está amea...

Sofrimentos, decisões e a dura realidade (Meu Pai)

Meu Pai começa com um conflito típico de gerações: Anthony eleva a voz e diz para a filha que não precisa de ajuda. Anne necessita que o pai aceite a ajuda de uma cuidadora para que ela consiga morar com Paul em Paris. Esse conflito logo aproxima o espectador da narrativa por estar presente no cotidiano de muitos pais e filhos. O que poderia ser um confronto momentâneo ganha proporções drásticas pelo fato de Anthony estar cada vez mais confuso sobre o que é real. Baseado em uma peça homônima, o roteiro explora a temática central da confusão mental que Anthony desenvolve e o confronto com a filha.  O mal de Alzheimer avança de forma avassaladora e consome as forças do protagonista. Do outro lado, totalmente fragilizada, está Anne que precisa lidar com momentos muito dolorosos acompanhados de extrema sinceridade de Anthony. O protagonista menciona de forma carinhosa a ausência da filha mais nova. Se para Anthony a lembrança é motivo de alegria, para Anne, a lembrança é carregada de s...

Um clássico entre os independentes (Mank)

Mank é o tipo de filme que a Academia gosta de premiar e as dez indicações confirmam o favoritismo em relação aos demais longas. O diretor  David Fincher  convida o espectador a mergulhar na Hollywood dos anos 30 e 40. A trama explora os bastidores conturbados do roteirista Herman J. Mankiewicz ao escrever o Clássico Cidadão Kane. Herman é responsável por chefiar o departamento de roteiros da MGM e, por esse motivo, não poderia ter o seu nome creditado, no que até hoje é considerado por muitos críticos o maior filme do cinema. O espectador acompanha a briga entre Herman e Wells pelo script da obra e as batalhas pessoais do protagonista.  Muito do que vemos em Cidadão Kane está presente em Mank. David Fincher, além de nos transportar para outra época, nos instiga em uma bela homenagem repleta de aspectos técnicos e estilísticos. Os elementos narrativos ressaltam a preocupação de Fincher com os mínimos detalhes que fazem toda a diferença para alcançar a aura da Era de Ouro ...

O despertar do monstro nos personagens (Instinto)

Instinto é um filme que aborda uma temática central que de certa forma liga os protagonistas: transtornos mentais. Não fica muito claro o transtorno sofrido pela psiquiatra Nicoline. A mãe de vez em quando dorme na mesma cama que a filha, em posição fetal, explorando uma vertente de super proteção. A protagonista possui dificuldades com relacionamentos afetivos, especialmente ao ser tocada por companheiros. Quando Nicoline começa um acompanhamento com Idris, o sentimento surge aos poucos. O personagem tem um histórico de violência e abuso sexual. Nicoline começa a perceber que Idris manipula os demais profissionais e é contra o retorno do personagem ao convívio social. Durante os atos, a protagonista vive o dilema ao se deixar levar pela manipulação de Idris, mesmo tendo consciência, ela deseja essa manipulação.  O espectador percebe que Nicoline possui traumas mesmo que o roteiro explore pouco ou quase nada dos conflitos internos da protagonista, pela excelente atuação de Carice v...

O excesso que prejudica a imersão do espectador (Cherry - Inocência Perdida)

  Cherry - Inocência Perdida é um filme de "novos rumos" para os envolvidos.  Tom Holland  estava com a carreira focada no super-herói da Marvel e os irmãos Russo no topo da notoriedade com o encerramento do universo compartilhado em  Vingadores Ultimato . O próximo passo seria arriscar e sair da zona de conforto. O filme é a oportunidade que o trio precisava para mostrar ao espectador que o passo foi dado. Bom, o passo foi dado, já o resultado... Na trama o espectador acompanha a vida de Nico Walker, um jovem que decide entrar para o exército e ao retornar para a casa precisa lidar com o estresse pós-traumático. Após alguns tratamentos, vale ressaltar o descaso nítido do país ao amparar ex-soldados, o protagonista busca refúgio nas drogas.  Apostar em um elenco jovem é um dos acertos presente na narrativa. Tom Holland está muito bem ao explorar as camadas do protagonista. Existe uma transição entre o Nico introvertido e o Nico dependente químico. A transformaçã...

Renúncias e Recomeços (O Som do Silêncio)

Ruben é baterista em uma banda de rock e vive um drama intenso e decisivo: está perdendo a audição. Aos poucos, o espectador acompanha todas as camadas do protagonista ao tentar retomar a rotina de shows com a companheira Lou. O filme gira em torno do estudo de personagem vivido por  Riz Ahmed , que recebeu uma indicação ao Oscar de melhor ator principal. Como a perda é significativa e gradual, o espectador acompanha o drama do ator de forma intimista vivendo em uma comunidade para a adaptação da nova realidade.  O diretor Darius Marder explora ao máximo a entrega de Riz como protagonista ressaltando o close e a câmera tremida. Os enquadramentos voltados para o close evidenciam a angústia de Ruben e quando o personagem perde por completo a audição os planos são abertos para ressaltar o silêncio. Ao mesmo tempo que acompanhamos o sofrimento de Ruben, outro protagonista, que está presente logo na primeira cena ganha destaque: o desing de som. O plano detalhe em objetos e o ...

O poder do real pela lente ficcional (Nomadland)

 Nomadland é o grande favorito nas principais categorias do Oscar, ao todo foram seis indicações. Mas o que faz o filme de Chloé Zhao ser reconhecido pela Academia? Acredito que seja um conjunto de elementos que envolve o espectador ao acompanhar a jornada de  Francis McDormand  pela estrada em busca de emprego e, principalmente, tentar superar traumas do passado. Na trama Fern perde o emprego em decorrência da crise financeira que afetou os Estados Unidos em 2008. Toda cidade de Empire, em Nevada, entra em colapso quando uma fábrica de materiais de construção vai à falência. Desempregada e sem vínculos afetivos, Fern decide viver de cidade em cidade estabelecendo laços passageiros em cada parada. O conjunto de elementos narrativos que torna Nomadland tão sensível aos olhos do espectador começa pela atuação de Francis McDormand que entrega uma das melhores atuações de sua carreira. Francis ressalta um olhar melancólico e terno para Fern. Os pequenos detalhes transformam a...