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Sentimentos revelados pelo olhar de Win Wenders (Paris, Texas)


Um road movie guiado pela autoria de Win Wenders. A cada cena de Paris, Texas o espectador acompanha a viagem da família Henderson. Uma viagem baseada no auto conhecimento, onde cada parada significa uma recordação do passado. No roteiro o primeiro conflito interno de Travis é a perda da memória. Após Walt ir ao encontro do irmão, o road movie envolve por completo o espectador. Interessante perceber como Sam Shepard equilibra os conflitos internos da família. À medida que os personagens chegam na casa de Walt, o vazio do deserto que dialoga com a passividade de Travis dá espaço para as recordações literais como na bela cena de confraternização entre os casais. Os conflitos continuam quando o pequeno Alex decide viajar com o pai para encontrar a mãe biológica. Com boa parte da memória recuperada o laço afetivo entre pai e filho fica mais forte. O desfecho  ressalta o acerto de contas com o passado e pedidos de perdão.

Além do laço sanguíneo que liga os personagens, alguns elementos narrativos os conectam durante todo filme. Alex, Travis e Jane surgem em cena com roupas vermelhas, cor que reforça o amor e a violência doméstica. A direção de arte também ressalta em pequenos objetos a cor vermelha. Um telefone no canto da sala, o boné de Travis e brinquedos de Alex. A fotografia enfatiza o reencontro do casal com uma intensa luz vermelha. O local onde Jane trabalha, logo na entrada é imerso pela cor vermelha. Outro elemento narrativo que estabelece uma conexão entre os personagens é a trilha sonora que reforça os momentos de virada no roteiro, principalmente em intensas decisões de Travis com relação ao filho e Jane.

O que contribuí bastante para o envolvimento do espectador é a interpretação de trio central. Harry Dean Stanton apresenta ao público um protagonista passivo no primeiro momento, após recuperar aos poucos a memória e reencontrar o filho, um ar de ternura e melancolia toma conta da construção do ator. Melancolia ao relembrar traumas do passado e ternura por saber que o filho ainda nutre sentimentos fortes por ele. Nastassja Kinski é de uma beleza que ganha a tela. Wenders a posiciona centralizada no primeiro encontro com o protagonista. A princípio existe um ar cômico e meio aéreo em Jane, após a personagem reconhecer a voz de Travis que sempre ecoou em seus pensamentos, a atriz intensifica o tom dramático na interpretação. Já o pequeno Hunter Carson é de uma inocência e naturalidade quando coloca os adultos em situações desconfortáveis. Os questionamentos de Alex movem os conflitos internos de Travis.

Paris, Texas é um road movie sobre enfrentamento de angústias com o resgate doloroso do passado. Em cada parada o espectador conhece um pouco mais sobre os conflitos internos dos personagens.  Acompanha-los nesta jornada de auto conhecimento é reforçar a autoria de Win Wenders. O diretor possui domínio constante de cena e posiciona os atores de determinada forma fazendo o espectador participar intensamente da narrativa. Quando Travis decide revelar para Jane quem ele realmente é a melhor escolha é dar às costas para a personagem representando a vergonha de atos violentos cometidos. Esse posicionamento dialoga perfeitamente com a postura de Jane, quando a personagem abaixa e se esconde para dizer que ainda o ama. Um espelhamento que encerra perfeitamente a jornada do casal. Sentimentos são revelados na mise-en-scène que ressaltam a autoria constante de Win Wenders.

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