Pular para o conteúdo principal

Uma linguagem teatral (Hebe: A Estrela do Brasil)



A tarefa não era fácil e deveria estar a altura de tudo que a protagonista significou para o imaginário popular. O diretor Maurício Farias embarcou no projeto e apresenta ao público a cinebiografia de uma das apresentadoras mais populares do Brasil. O período retratado no filme é a década de oitenta, pós-ditadura militar e em meio a uma crise econômica que assolou o país. A trama alterna momentos da apresentadora nos programas de auditório e os conflitos da vida pessoal. O filme ressalta a luta da apresentadora em abordar temáticas consideradas tabus na sociedade. O marido machista e o ambiente de trabalho opressor não impediam Hebe de manter suas convicções. E, assim, entre os atos o espectador acompanha um determinado período da vida da apresentadora.

O roteiro de Carolina Kotsccho enfatiza a personalidade forte da apresentadora. A trama alterna momentos da vida pessoal e profissional. Alguns pontos são destaque: a super proteção com o filho Marcelo, o casamento violento com Lélio, a amizade com Lolita e Nair, os diminutivos que expressavam carinho e autenticidade, o amor por Roberto Carlos e a luta para defender temáticas que eram abafadas pela sociedade. O roteiro utiliza a luta da protagonista para combater o preconceito em torno da transexualidade e do vírus da Aids. Além de ter como companhia as joias mais caras e todo o glamour em torno do programa, Carolina reforça o distanciamento nas relações pessoais e a entrega em vários momentos para a bebida. O que fica claro é que a autenticidade dos palcos era camuflada pelo ambiente conturbado dentro de casa. O filme cresce nesse aspecto, pois apresenta ao espectador um lado desconhecido da protagonista. Hebe, assim como várias mulheres, lutou pelo casamento com Lélio, mesmo observando sinais nítidos de que algo pior pudesse acontecer. Outro ponto fundamental no arco da protagonista é a determinação de Hebe em não ser moldada por nenhuma emissora. A protagonista enfrentava o governo e fazia do microfone uma arma para alertar a população. Existia uma intimidade entre a apresentadora e o telespectador que fazia de Hebe uma figura querida em todo o país. O roteiro consegue transmitir para o espectador a força que Hebe tinha quando comandava os programas de televisão e a personalidade forte em casa. 

Vale destacar o trabalho de figurino e maquiagem do filme para transmitir com fidelidade a personalidade forte de Hebe. Joias, roupas extravagantes e muito brilho. Como a protagonista ressalta ao fechar contrato com o SBT: " Falta brilho, eu quero chegar deslumbrante.". Quando a protagonista passa por dificuldades, o glamour dá lugar ao cabelo despenteado e a ausência de maquiagem. Outro elemento marcante no filme é a edição de som que acompanha a protagonista a todo o momento provocando certo incômodo no espectador. Maurício utiliza a câmera na mão em várias cenas no filme e o som está presente acompanhando a protagonista. Já a edição de som com a trilha estabelece uma intensa alternância em torno das camadas da protagonista, porém em algumas cenas a junção incomoda o espectador. Os elementos narrativos voltados para o som no filme são explorados de forma exagerada e prejudicam o andamento da narrativa. O mesmo acontece com a direção de Maurício Farias. É nítido que o diretor quer explorar ao máximo a interpretação de Andréa Beltrão, porém os demais personagens transmitem a sensação de interrupção e falta de conclusão nas cenas. Os silêncios entre Marco Rica e Caio Horowicz intensificam esse aspecto. Os diálogos são fortes entre os personagens, mas a condução das cenas faz com que o trabalho dos atores perca a força. O mesmo acontece com as participações especiais, principalmente as que são exploradas nos programas de auditório. Os convidados são filmados de costas para ressaltar a interação de Hebe com a plateia, o problema é que não existe o foco nos personagens. Ter como convidados Derci Gonçalves, Roberta Close e Roberto Carlos e explorá-los somente de longe perde o sentido e potência da persona dos coadjuvantes. 


Um dos aspectos mais pulsantes em Hebe é a atuação de Andréa Beltrão. A atriz tinha uma persona extremamente caricata para se espelhar. Hebe era extravagante e esbanjava vontade de viver em cada programa. O que mais chama atenção no trabalho de Beltrão é o estudo dos trejeitos e a mudança vocal, Hebe tinha um timbre característico, uma voz marcante e maneira peculiar de se portar. Fica evidente que a atriz em um primeiro momento quis imprimir todas as características da personagem ao mesmo tempo soando um tanto quanto ouveracting. Aos poucos e principalmente na vertente pessoal Andréa consegue dosar os trejeitos de forma mais delicada. Maurício explora ao máximo o trabalho da atriz que aos poucos cativa o espectador. O núcleo que realmente sobressai na trama é o dos empregados e de Marcello. A companhia para o filho sempre foi os empregados e os atores estão mais soltos nos devidos personagens. 

A cinebiografia de Hebe: A Estrela do Brasil exalta a personalidade forte da apresentadora ao defender temáticas consideradas tabus nos anos oitenta. O filme equilibra momentos profissionais e dificuldades na vida pessoal envolvendo o espectador. Andréa pesa a mão em boa parte do filme ao compor a protagonista, mas aos poucos cativa o espectador com a riqueza de detalhes ao compor a personagem. O grande problema é que o filme todo transmite a sensação de linguagem teatral e Maurício reforça esse quesito ao proporcionar pausas prolongadas entre as falas dos personagens em cena, além de todos estarem sempre um tom acima na interpretação. Ao final da sessão a impressão que o filme deixa é que o material daria uma ótima peça teatral.


Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

E o atendente da locadora?

Tenho notado algo diferenciado na forma como consumimos algum tipo de arte. Somos reflexo do nosso tempo? Acredito que sim. As mudanças não surgem justamente da inquietação em questionar algo que nos provoca? A resposta? Tenho minhas dúvidas. Nunca imaginei que poderia assistir e consumir algum produto em uma velocidade que não fosse a concebida pelo autor. A famosa relíquia dos tempos primórdios, a fita VHS, também nos aproximava de um futuro distópico, pelo menos eu tinha a sensação de uma certa distopia. Você alugava um filme e depois de assistir por completo, a opção de retornar para a cena que mais gostava era viável. E a frustração de ter voltado demais? E de não achar o ponto exato? E o receio de estragar a fita e ter que pagar outra para o dono da locadora? Achar a cena certinha era uma conquista e tanto. E o tempo...bom, o tempo passou e chegamos ao DVD. Melhoras significativas: som, imagem e, pasmem, eu poderia escolher a cena que mais gostava, ou adiantar as que não apreciav...

Entretenimento focado em referências (Um Espião e Meio)

Logo no início de Um Espião e Meio as referências são evidentes ao retratar a adolescência dos protagonistas. Muito próxima da linguagem narrativa utilizada em Anjos da Lei com Jonah Hill e Channing Tatum, o universo escolar é abordado pelo contraste de características dos personagens. Dwayne Johnson vive o agente da CIA, Bob Stone que no passado sofria bullying por estar cima do peso, as cenas do protagonista na adolescência são próximas as da filha de Bela na Saga Crepúsculo. A montagem com o rosto do ator em um corpo diferente é , no mínimo, questionável. Kevin Hart vive Calvin Joyner, sempre conhecido como Foguete Dourado, o  mais popular na juventude . Após 20 anos, ambos se reencontram e fica evidente que um ajudará o outro a desvendar uma trama repleta de clichês.   O filme aposta na química da dupla, mesmo que esta não funcione a maior parte do tempo. Individualmente os atores possuem carisma suficiente para segurar os protagonistas, mas quando estão juntos a...

Um sopro inovador em Hollywood (Buscando...)

Buscando... é uma trama que presa pelos detalhes, eles estão todos na tela e aos poucos tudo se encaixa como peças de um quebra-cabeça. O envolvimento do espectador é imediato. Com um ritmo constante o público conhece e se conecta com os dilemas da jovem Margot. Com a morte da mãe, a adolescente sempre mantém contato com o pai por mensagens no celular e ligações. David começa a ficar preocupado quando a filha não retorna para casa e logo o pai pede ajuda da polícia para tentar encontrar a filha.  O roteiro do diretor Aneesh Chaganty e de Sev Ohanian ressalta detalhes e  provoca o envolvimento do espectador. Todos são suspeitos do desaparecimento de Margot. Os roteiristas exploram um equilíbrio interessante entre comédia e tensão. David faz uma investigação paralela entrando no computador da filha. A conexão com a vida real do espectador é imediata. David busca amigos e vídeos em diversas redes sociais da filha. A medida que David consegue ligar os pontos e conhecer um...