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A sensibilidade que toca o espectador (Divaldo - O Mensageiro da Paz )


Divaldo - O Mensageiro da Paz acompanha a trajetória do protagonista por décadas voltadas para os conflitos internos de Divaldo ao compreender sua missão na terra. A aceitação também é explorada ao extremo pelo julgamento dos demais em achar que o protagonista é louco e por Divaldo ao atravessar momentos difíceis de provação. O roteiro foca a princípio na infância do personagem em 1933. O embate de crenças é o que move o primeiro ato. Divaldo não sabe exatamente o que acontece com os espíritos que surgem no quarto pela noite para causar pânico e pesadelos. O que pode incomodar alguns espectadores é o embate entre a Igreja Católica e o Espiritismo. Durante boa parte do filme alguns questionamentos são levantados em um roteiro expositivo para que o espectador compreenda o posicionamento de ambas. O fato do embate entre as crenças fica nítido com o personagem de Marcos Veras como um espírito que perturba a paz do protagonista. O fato de o personagem ser padre reforça alguns conflitos entre as crenças. Porém, esse embate é compreensível pelo fato do filme se passar na década de 30, onde o espiritismo era banido da sociedade da pior maneira possível. No decorrer dos atos a rivalidade permanece somente na figura de Veras. O espiritismo ganha força e o pré-conceito é deixado de lado em prol de algo maior: o amor ao próximo. O roteiro explora muito bem a humanização do protagonista. Divaldo passa por diversas provações pessoais para aceitar que possui o dom da mediunidade. O pré-conceito surge dentro de casa na figura paterna, mas aos poucos a aceitação torna-se inevitável. Divaldo compreende que precisa se dedicar de forma intensa para entender tudo que o espiritismo pode lhe proporcionar. Neste momento a personagem de Regiane Alves é fundamental como mentora. Mesmo que em alguns momentos a presença da personagem torne a trama cansativa, ela complementa o arco do protagonista. Clovis Mello explora de forma intensa o humor principalmente voltado para a aceitação do protagonista. São momentos leves que equilibram os gêneros no filme. O fato de o protagonista ver espíritos o afasta das pessoas e esse aspecto é explorado de forma eficaz e cômica. 

A direção de Clovis Mello transmite a sensação de urgência e de interrupção nos dois primeiros atos. O primeiro contato do protagonista com alguns espíritos é de extrema tensão com a instabilidade constante da câmera. Quando o protagonista consegue lidar de maneira mais contida na presença dos espíritos, os cortes são extremamente abruptos e proporcionam a sensação de ausência de fechamento nas cenas. Esse aspecto fica nítido quando Divaldo desmaia no velório do irmão. Não existe uma conclusão da cena, o protagonista desnaia e logo temos Divaldo paralisado na cama. A leitura das interrupções dos movimentos de câmera dialoga com a instabilidade do protagonista ao compreender o que está acontecendo e como ele pode lidar com a situação. O problema é que a instabilidade emocional do protagonista não é concluída nas cenas. A leveza na aceitação do protagonista é reflexo de movimentos mais suaves de Clovis na direção. As cenas são repletas de sensibilidade transportadas na tela pela movimentação em 360. Os giros da câmera principalmente nas reuniões e transições do protagonista para a idade adulta e velhice na presença do próprio Divaldo reforçam a ligação com a emoção do espectador. 

A trama percorre toda a vida do protagonista e a escolha do elenco transmite principalmente a leveza e conflitos internos de Divaldo. João Bravo é responsável pela criança que fica apavorada com a presença dos espíritos ao seu redor, mas que aos poucos brinca constantemente com o fato de ver e poder convencer principalmente Dona Ana que existe algo muito especial nele. O jovem Divaldo é interpretado por Guilherme Lobo e cabe ao ator passar por diversas transformações no arco do personagem. O ator transmite camadas intensas para o protagonista o humanizando de forma leve e por alguns momentos agressivo. Existe uma dualidade constante que acompanha o trabalho do ator em tentar explorar a mediunidade e ao mesmo tempo construir uma família. E na terceira fase, Bruno Garcia é a sensibilidade completa para a entrega ao personagem. O domínio com relação ao dom estabelece uma conexão emocional com o espectador. É um trabalho contido que transmite a serenidade necessária para o protagonista. Vale destacar Marcos Veras como Espírito obsessor. A entrega do ator é fundamental para humanizar o protagonista. Todos os questionamentos e pensamentos negativos são atribuídos ao personagem. No desfecho um ensinamento espírita é fundamental para o começo de uma nova trajetória para Veras. 


Vale destacar o trabalho da direção de arte ao longo do filme. Nos atos o espectador pode perceber objetos cênicos na cor azul. Vários deles aparecem em momentos importantes na vida do protagonista. No espiritismo a cor azul possui o significado de limpeza espiritual. Divaldo exerce constantemente no filme o exercício de questionamentos relacionados à sua conduta espiritual. Regiane Alves apresenta um figurino com manto azul para guia-lo nesse exercício espiritual, além de ser uma referência a Virgem Maria. O azul também remete ao combate a angústia que é explorada tanto no protagonista quanto no Espírito obsessor. O trabalho da direção de arte pode ser notado também nas casas em que o protagonista mora. Na infância Divaldo mora em uma casa simples com a família. A simplicidade o acompanha quando ele muda para Salvador e se faz presente até o desfecho. A trilha sonora também auxilia na simplicidade presente no filme, pois surge em momentos pontuais de forma suave e envolvente sempre ressaltando os extremos : a presença do espírito obsessor e a busca pela paz do protagonista. 

Divaldo: O Mensageiro da Paz é um filme que apresenta ao longo da narrativa um roteiro expositivo no intuito de intensificar a compreensão da doutrina espírita. Apesar de gerar uma sensação de cansaço em alguns momentos, o roteiro explora de forma criativa e sábia o humor para contornar o pré-conceito em torno da doutrina. Os atores emprestam a sensibilidade necessária que o protagonista precisa no decorrer das três fases da vida de Divaldo. Após a sessão o sentimento que fica é de que independente da crença do espectador, o protagonista dedica toda a vida para o próximo. O amor e o perdão movem a trama e tocam sensivelmente o espectador.

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