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O equilíbrio entre nostalgia e autoria (Jurassic World : Reino Ameaçado)


Jurassic World: Reino Ameaçado é puro reflexo de todos os elementos que o espectador já conhece dos filmes anteriores. Temos a parte voltada para os fins lucrativos e gananciosos, o personagem que se recusa a viver uma nova aventura que tenha dinossauros por relembrar traumas do passado, o alívio cômico da equipe, a parceira que auxilia o protagonista (e como grita também), uma espécie nova de dinossauro e a grata surpresa ao colocar Blue como protagonista. Além de explorar o novo astro\ galã\ lucrativo do momento. A essência de Jurassic Park está de volta. Repleto de pura nostalgia, o filme entrega boas cenas de ação e acrescenta uma atmosfera de terror pouco vista nos filmes anteriores. Sinal de novos rumos ? 

Claire decide volta à ilha para salvar os dinossauros que habitam o local. Um vulcão está ativo e irá extinguir todas as espécies. Owen acompanha Claire pelo lado afetivo, Blue está na ilha. O roteiro de Colin Trevorrow e Derek Connolly mescla de forma interessante a parte afetiva da relação entre Blue e Owen. O diferencial da trama é justamente fazer com que os dinossauros sejam os verdadeiros protagonistas. O retorno do casal para a ilha é somente o pano de fundo para que Blue tome conta da narrativa. Como em toda a franquia existem dois grupos e um vilão infiltrado que visa lucrar com os dinossauros, Claire aceita transportá-los, mas no meio do caminho descobre todo o plano de Ted Levine. O roteiro da dupla ambienta o espectador na ilha. É sempre bom ver os dinossauros em um ambiente amplo. Porém, quando o roteiro foca no arco da pequena Maisie a trama perde força. O alívio cômico fica por conta de Franklin que cansa o espectador ao invés de proporcionar leveza ao filme. Algo, no mínimo, inusitado acontece com Claire. No filme anterior, a personagem era mais forte e decidida. Afinal de contas, não é sempre que uma protagonista passa o filme todo correndo de um lado para o outro com um salto agulha. Brincadeiras à parte, agora, a personagem não possui a mesma determinação e passa boa parte do tempo gritando. Uma mudança drástica e sentida ao longo da trama. Cris Pratt achou um ramo para chamar de seu: o galã carismático. Funciona muito bem no contexto proposto. 

Levar os dinossauros para um ambiente diferenciado foi um dos equívocos no roteiro , mas reforçou de forma positiva uma mudança na direção. Juan Antonio Bayona que tem em sua filmografia uma atmosfera voltada para o terror, no meio do segundo ato reforça a força do gênero ao explorar as espécies em um ambiente fechado e claustrofóbico. Várias cenas, principalmente, a de Maisie na cama é de uma atmosfera raramente vista nos filmes da franquia. Acerto do diretor ao criar o terror necessário para inserir o espectador na trama. A fotografia escura reforça a tensão gerada dentro da mansão e o filme ganha um ritmo diferenciado ao explorar uma nova espécie mais violenta e lucrativa. Indoraptor é insaciável por sangue e Juan explora ao máximo o lado intenso da criatura. As cenas são mais explícitas. Jurassic World: Reino Ameaçado é o mais violento dos filmes da franquia. Um diferencial que está ligado diretamente a autoria de Juan na direção.  



O que acompanha toda a trama é o resgate da nostalgia presente no primeiro filme da franquia. Jurassic World: Reino Ameaçado é uma grande homenagem ao filme de 93. Várias cenas proporcionam o resgate importante para o referencial emocional do espectador que acompanhou os filmes anteriores. Um sentimento de déjà vu toma conta da tela. Impossível ficar indiferente, mesmo que o roteiro insira algumas situações visando somente agradar o espectador. O resgate emocional se perde no meio do caminho com a parte voltada para o leilão dos dinossauros. Todo o arco dos vilões presente no filme faz o espectador perder o elo afetivo criado durante todo o filme. Mesmo que o roteiro explore a sede por ganância que permeava os filmes anteriores, esse aspecto não resiste ao desgaste na trama. No terceiro ato o filme perde consideravelmente a força. Apesar das cenas constantes de ação, o espectador se perde nas subtramas e na decisão contraditória de alguns personagens.  

Jurassic Park : Reino Ameaçado é pura nostalgia e autoria com toques de terror. O gênero permeia várias cenas com uma fotografia escura em ambientes claustrofóbicos. A trilha busca o inédito, mas também existe uma pincelada do tema de John Willians. O grande equívoco do filme são algumas decisões  dentro do roteiro e os arcos de personagens que perdem a personalidade. Aspectos que ficam nítidos principalmente pela montagem que intercala subtramas que não acrescentam muito a trama. No final da sessão existe a sensação no espectador de novos rumos para a franquia. Jurassic Park : Reino Ameaçado explora um equilíbrio interessante entre nostalgia e autoria. 

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